12 de abril de 2014

FÉ E RAZÃO - PARTE I

Cires Canisio Pereira- Outubro de 2014

Leia a parte II, acesse: http://www.escritaglobal.com.br/2014/04/fe-e-razao-parte-ii.html


Este texto é parte constitutiva de uma abordagem sobre Fé e Razão, é composto por uma introdução que faz uma retrospectiva superficial da história do cristianismo e por uma breve síntese das ideias marcantes de Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino e do Papa João Paulo II.

Escolhi o afresco "A criação de Adão" do célebre renascentista Michelângelo, pois ele, ao meu ver, suscita as seguintes indagações: 

Adão diante de Deus procura compreendê-lo, sugerindo que o homem estaria construindo ou criando Deus? Adão, feito a imagem e semelhança de Deus e, na condição de criatura, curva-se ao seu criador?


Afresco 2,80 x 5,7 0 " A Criação do Adão" 1511 - Michelângelo Buonarotti 

Introdução


Levando-se em conta o fato de estarmos inseridos numa sociedade profundamente identificada com o cristianismo e em grande parte identificada com o catolicismo, penso que é pertinente falar um pouco a respeito da história da Igreja antes de refletir sobre o tema razão e fé.

Ao longo da Alta Idade Média em toda a Europa o poder da Igreja Cristã se espalhou e se impôs, esta afirmação foi facilitada pelo colapso da autoridade temporal na Europa em razão do desmantelamento do Império Romano do Ocidente em 476. Anos antes o Império já havia reconhecido o cristianismo após um longo período marcado por uma contundente perseguição aos cristãos desde a época de Cristo. Outro fator decisivo foi a cristianização dos povos que se deslocaram para a Europa entre os séculos IV e VI, chamados de ‘bárbaros”, ao fixarem-se na região acabaram apropriando-se dos hábitos e crenças dos locais.


No Concílio de Niceia, em 325, as bases religiosas e ideológicas da Igreja Cristã foram concebidas e aplicadas. Através da centralização de seus princípios e da formulação de uma estrutura hierárquica, a Igreja então edificava os pilares para crescer e se impor. Passou a influenciar o conjunto da sociedade tanto nas condutas cotidianas quanto no conjunto da produção cultural (artística e científica), uma prova disso era a organização da sociedade segundo a ideia da Santíssima Trindade, dividida entre clero, nobres e servos.

Além da sua influência no campo das ideias, a Igreja detinha um vasto, significativo e cobiçado patrimônio material. A Igreja controlava grande parte dos territórios feudais, se transformando em importante chave na manutenção e nas decisões do poder nobiliárquico. O celibato clerical constituiu-se também num mecanismo para impedira a dilapidação do patrimônio católico, pois se os clérigos não podiam constituir família, não teriam herdeiros que pudessem reclamar algum direito. 

Exceto os membros da Igreja, eram poucas as pessoas alfabetizadas e/ou que tivessem acesso às obras escritas. Por isso, muitos mosteiros medievais preservavam bibliotecas inteiras onde grandes obras do Mundo Clássico e Oriental eram preservadas. Agostinho e Tomás de Aquino, por exemplo, tiveram acesso à vários textos e ideias da antiguidade. 


Mesmo poderosa e influente, a Igreja teve que conviver com defecções ou dissidências. As heresias, seitas e ritos pagãos interpretavam o texto bíblico de forma independente e/ou não reconheciam o papel sagrado da Igreja. Por exemplo, A instituição sofreu um forte revés em 1.054 quando cristãos no Oriente decidiram não mais acatar a autoridade do Papa em Roma, foi o Cisma do Oriente.


Mas foi a partir do século XV que a instituição passou a ter que enfrentar crescentes manifestações contrárias à sua autoridade, aos seus dogmas e rituais. As mudanças repercutiram no colapso do sistema feudal e principiaram a transição feudo-capitalista. Humanistas, renascentistas e reformadores, colados às estas mudanças, passaram a ser mais ouvidos e, deste modo, a Igreja se viu diante da perda de um bom número de fiéis para novas Igrejas Cristãs protestantes.

No final da Época Moderna as mobilizações cresceram contra o absolutismo na Europa e o Sistema Colonial na América, os aderentes às estas duas causas identificaram-se, em grande medida, com as ideologias liberais e iluministas que apregoavam a liberdade, incluindo a liberdade religiosa. Os Estados Liberais estabelecidos, tanto do lado de lá do Atlântico quanto do lado de cá, tornaram-se com o tempo “Estados Laicos”, portanto garantidores da liberdade religiosa na medida em que não estão mais vinculados ou tutelados à Igreja Católica.


As dissidências entre os cristãos tornaram-se ainda mais frequentes, mesmo assim é inegável o prestígio e a robustez da Igreja Católica até os dias de hoje. Tal força se deve também ao fato de que a instituição passou a se debruçar mais sobre as causas destas dissidências e tomar providências para reduzir seus impactos. Tomamos com exemplo o Concílio de Trento, realizado pela Igreja Católica entre 1545 e 1563, que além de ter reafirmado as posições doutrinais, os cultos e a liturgia católica optou por adotar uma linha mais repressora contra os dissidentes ou protestantes daquela época.

Santo Agostinho – 354 - 430

Santo Agostinho 
Aurélio Agostinho também conhecido como Santo Agostinho viveu entre 354 e 430 Nasceu em Tagaste e faleceu em Hipona, ambas cidades argelinas. 

É Considerado o principal ideólogo cristão na Alta Idade Média.

Inicialmente Agostinho era muito apegado ao maniqueísmo e ao ceticismo neoplatônico, converteu-se ao cristianismo em 386 e suas ideias passaram a influenciar os cristãos. Consta que ele teria ouvido a voz de uma criança que insistia pra que ele tomasse a Bíblia e lesse, ao abri-la leu um trecho da Carta de São Paulo aos Romanos (13:13-14) “Não caminheis em glutonerias e embriaguez, nem em desonestidades e dissoluções, nem em contendas e rixas, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis a satisfação da carne com seus apetites”


Agostinho concebeu o conceito de Igreja como sendo uma cidade espiritual de Deus que se distingue da cidade material. Logo a Igreja tomou este conceito como base. Agostinho sobre o mal, afirmava que Deus, sendo benevolente, não criara o mal, porém o mal origina do livre-arbítrio que Deus concede ao ser humano. O ser humano é única criatura que Deus concedeu esta faculdade.

Seu pensamento foi fundamental na conformação dos limites de conduta e de pensamento ao ser humano na época medieval. Afirmava que o conhecimento da natureza era importante, desde que não contrariasse os dogmas da fé. Logo a fé sempre estaria acima da razão, reforçava assim a ideia de um Deus onisciente, onipresente e onipotente. Deus é a medida de todas as coisas

Santo Tomás de Aquino – 1225 - 1274

Tomás de Aquino nasceu e viveu na Itália entre 1225 e 1274. Seu pensamento repercutiu no delineamento de uma nova postura da Igreja Católica de forma direta e, indiretamente na conduta e postura de muitos formadores de opinião na época. A Igreja passou ater uma Teologia tendo por base a revelação e uma Filosofia pautada na razão humana que poderiam conviver harmoniosamente. Razão e fé estariam assim unidas num propósito, a compreensão e a crença em Deus. Sustentou que a filosofia não pode ser substituída pela teologia e que ambas não se opõem. Afirmou que não pode haver contradição entre fé e razão. 

Aqui uma importante divergência entre Agostinho e Tomás de Aquino. Agostinho entendia que a verdade é definitiva, portanto imutável e inquebrantável. Enquanto Aquino sustenta que a verdade é a consequência de fatos causados no passado. A eliminação da totalidade ou até de parte destes eventos ou fatos comprometeria a verdade. No ponto mais crucial Aquino e Agostinho concordam – a verdade divina - esta verdade não foi criada, pois Deus sempre existiu, como não foi criada Deus sempre existiu.

O pensamento tomista leva em conta os recursos da razão humana para compreender, à luz da fé, tudo o que a razão conhece e procura conhecer em seu campo próprio. Reconhece a autonomia da razão, embora não admita o fato de que razão por si só seja capaz de explorar os recônditos da fé em Deus, apesar de ser Ele a sua finalidade. O tomismo não exclui a razão, pois que fora dada por Deus, o “donum intelectos”.

João Paulo II – 1920 - 2005


Papa João Paulo II
Passados 740 anos o Papa João Paulo II expõe em sua Encíclica “Fides et ratio”, anunciada em 1998, uma abordagem que corrobora com a “Summae Theologiae” de Santo Tomás de Aquino. Para o sumo pontífice católico a razão e a fé “constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de o conhecer a ele, para que, conhecendo-o e amando-o, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio.” (Fides et ratio)
João Paulo II alerta para o perigo de uma filosofia que, privada da questão do sentido da existência, acabe por levar-nos a abdicar da própria busca da verdade objetiva e, portanto, de Deus. Afirma ainda que:

 "uma filosofia que quisesse negar a possibilidade de um sentido último e global seria não apenas imprópria, mas errônea." (Fides et ratio).

João Paulo II nomina as correntes do pensamento bem como os seus erros mais significativos: o ecletismo, o historicismo e o cientificismo. O historicismo, por exemplo, peca ao estabelecer a verdade de uma filosofia com base na sua adequação a um determinado período e função histórica.

"Deste modo nega-se, pelo menos implicitamente, a validade perene da verdade. O que era verdade numa época, afirma o historicista, pode já não sê-lo noutra. Em resumo, a história do pensamento, para ele, reduz-se a uma espécie de achado arqueológico, a que recorre a fim de pôr em evidência posições do passado, em grande parte já superadas e sem significado para o tempo presente." (Fides et ratio).

Penso que o historicismo, sendo a apropriação de uma visão de mundo tipicamente moderna e ocidental, é amparada na noção de que as configurações do mundo humano, num dado momento presente, sempre são o resultado de processos históricos de formação, os quais são suscetíveis à reformulação e reconstrução. Não vejo isto, do ponto de vista científico, um "erro" como quer o Sumo-pontífice.

Em resumo é previsível que Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino e João Paulo II repudiem a tese da autonomia da razão e a possibilidade de a razão ser uma espécie de guia infalível para a compreensão das coisas. Por razões muito óbvias, já que estamos falando de homens identificados e envolvidos, em seus devidos tempos, com a Igreja Católica. 

Portanto o que pudemos depreender foi o imperativo da fé frente à razão, mesmo os dois últimos admitindo mais do que o primeiro a validade ou importância da razão na compreensão do meio e do ser.
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