EUA 1: NASCIMENTO E AFIRMAÇÃO DE UM "IMPÉRIO"

 Cires Canisio Pereira

A "Bald Eagle" ou a "Águia de cabeça branca" passou a ser o emblema dos EUA logo depois da guerra de independência contra os ingleses, no ano de 1782. Trata-se de uma ave encontrada somente na América do Norte, tem longa vida, é muito forte e de aspecto majestoso. O voo da águia dá uma ideia de liberdade que era exatamente o que os fundadores dos EUA queriam enfatizar, uma nação soberana e poderosa.

INTRODUÇÃO 

Este texto integra um conjunto de cinco textos que analisam o contexto mundial atual, enfatizando o quadro norte-americano. O Objetivo destas análises é compreender as contradições inerentes ao protagonismo norte-americano, contradições estas que poderão desembocar num quadro de crise ou até no colapso deste protagonismo.

Todos percebem e reconhecem o atual protagonismo estadunidense no cenário mundial. Procurarei anunciar e explicar as bases deste protagonismo ao longo da história desta nação, cuja soberania fora conquistada "recentemente", há pouco mais de dois séculos. Nesta exposição espero que o leitor compreenda as conexões entre as mudanças e o desenvolvimento histórico nos EUA e as mudanças históricas a nível internacional.

A FUNDAÇÃO DOS EUA



Assim que conquistaram a soberania política pela via armada, as representações políticas e militares das elites das 13 ex-colônias inglesas trataram de "fundar" um Estado alicerçado nos princípios do liberalismo político e do liberalismo econômico. Instituíram um Estado muito aquém das aspirações legítimas dos setores populares, liberal é verdade, mas excludente ou elitista também é verdade. Uma prova contundente disto foi a preservação do regime de escravidão imposto aos afro-americanos e a não extensão dos direitos políticos aos trabalhadores, analfabetos, indígenas e mulheres.

Esta ordem jurídico-política atraía investimentos e investidores privados e se constituiu na primeira e principal base do crescimento econômico desta nação após a emancipação. 

A ordem republicana foi instituída com o poder executivo sendo comandado pelo presidente que seria concomitantemente Chefe de Governo e Chefe de Estado. Para que não houvesse abuso da autoridade do mandatário estabeleceu-se a teoria dos freios e contrapesos concebida pelo filósofo iluminista francês Montesquieu, isto é os poderes judiciário e legislativo também foram instituídos, ficando o primeiro como zelador da ordem jurídica e o segundo, na condição de depositário da confiança da sociedade civil, como conceptor da legislação ordinária e fiscalizador da conduta do poder executivo. 

Previsivelmente estas lideranças fundadoras dos EUA trataram de assegurar uma convivência harmoniosa entre as regiões - os estados do norte e os estados do sul -, culturas, economias e hábitos distintas entre si com o "pacto federativo". A ordem, portanto era preservar a unidade nacional respeitando as diversidades regionais.


A CORRIDA PARA O OESTE


Sioux
Outra importante base para a prosperidade americana foi a ocupação dos territórios à Oeste até as margens do Oceano Pacífico, esta ocupação veio acompanhada de um processo sistemático de colonização. Uma colonização que comprometia o "modus vivendi" e o "modus operandi" das populações nativas que eram então forçadas a viverem em reservas demarcadas pelas autoridades estadunidenses.

As autoridades estadunidenses após terem adquirido territórios juntos aos governos francês, espanhol e inglês, trataram de anexar as regiões situadas no norte do México, este processo ocorreu entre 1845 e 1853. As tropas estadunidenses triunfaram sobre as mexicanas em 1848 forçando o governo mexicano a conceder os territórios situados no sudoeste dos EUA além do Estado do Texas. 

Para a economia nordestina de base manufatureira que neste momento colhia os primeiros resultados da industrialização as regiões do "meio oeste" e do "oeste" americanos deveriam produzir excedentes de matérias primas, alimentos e recurso energéticos para municiarem a industrialização nordestina. Ao "oeste" também era fundamental que se tornasse potencial consumidor dos excedentes gerados pela indústria nordestina.


A GUERRA CIVIL

As diferenças crescentes entre o nordeste mais urbano e industrializado e o sudeste mais rural e agrário minavam as bases do pacto federativo, tornando inevitável sua cisão em 1861, logo após a posse do novo presidente, o "republicano" Abraham Lincoln que tendia aos interesses das elites urbanas nordestinas. Sentindo-se alijadas as elites sudestinas pressionaram seus respectivos governantes regionais a se unirem contra o governo central. O resultado foi a Guerra de secessão que se estendeu até 1865.

Com a vitória previsível da União sobre os Confederados, o pacto federativo foi restabelecido, ficando mais robusto do que antes. A escravidão foi abolida em todo o território nacional e o protecionismo favorecedor da industrial nacional mantido. A industrialização foi então impulsionada em todo o país, aproveitando-se de um quadro de acomodação e retração das economias europeias desde 1873.


Bebedouros separados pra "brancos" e "negros"

Mesmo tendo sido abolido regime de escravidão os afro-americanos continuaram sendo discriminados e segregados, especialmente no sudeste dos EUA, o último bastião da escravidão. Uma prova disto foram as crescentes perseguições aos afrodescendentes perpetradas especialmente pelos militantes da KU KLUX KLAN, uma milícia que atuava imune e contrariando a legislação dos EUA, graças a leniência da maioria das autoridades constituídas e à colaboração de empresários indignados e preocupados com a libertação dos afro-americanos.


A "BALD EAGLE" AFIA E MOSTRA SUAS GARRAS


Big Stick de Theodore Roosvevelt

Tais investimentos não seriam feitos pelas empresas privadas estadunidenses se as autoridades dos EUA não dessem garantias de seriam seguros. Eis a razão maior do deslocamento de soldados dos EUA para as regiões da América Central, do Caribe e do Pacífico cuja missão seria assegurar a ordem e a estabilidade que dessem lucros crescentes aos investidores. Os melhores exemplos desta estratégia foi o deslocamento e a fixação de soldados das forças armadas americanas para guarnecerem a "zona do canal" no Panamá e o arrendamento de um espaço no território cubano em Guantânamo (recém emancipado da Espanha) para a fixação da uma base militar dos EUA.Mesmo com o mercado consumidor crescendo, as autoridades públicas renderam-se à pressão do grande capital em favor de uma política internacional imperialista. As primeiras inversões de excedentes financeiros ocorreram na América Central , no Caribe e nas Ilhas do norte do pacífico.

A grande guerra iniciada em 1914 na Europa Ocidental foi então fundamental para que a economia dos EUA se tornasse a mais importante, pois todos passaram a depender dela. A Europa não poderia ser reconstruida sem o capital dos EUA. As exportações e os empréstimos de capitais dos EUA aos europeus tornaram-se inevitáveis. Entre o final da guerra e 1925 as exportações crescentes dos EUA para os mercados europeus e os mercados periféricos em razão da reconstrução europeia e os crescentes empréstimos concedidos pelos bancos norte-americanos para empresas e governos europeus tornavam a economia europeia cada vez mais dependente e exposta à uma possível oscilação econômica no EUA.


"BALD EAGLE": UM POUSO FORÇADO


Desempregados na fila do pão - Detroit 1933

Esta situação ocultava uma contradição que avançava nos EUA, o ritmo de crescimento econômico era cada vez mais intenso do que o ritmo de desenvolvimento dos indicadores sociais, como o emprego e a renda. Como se tinha a sensação de que a economia poderia continuar, empresas e autoridades pouco se importavam com a retração de demandas internas. Este cenário levou a crise econômica, branda e parcial entre 1925 e 1929 e aguda e total entre 1929 e 1933. Uma crise que abalou o conjunto das economias de mercado no mundo. 

Devido à sua longevidade e intensidade, a retração econômica para muitos analistas era entendida como uma "great depression" (grande depressão). O modelo vigente, baseado nos princípios econômicos advogados por Adam Smith e David Ricardo denominado liberalismo entrou em colapso, criando lacunas passarão a ser preenchidas por uma novo modelo econômico concebido pelo britânico John Maynard Keynes. Para estes mesmos analistas a superação desta crise dependerá de um modelo econômico alternativo. 

Todas as autoridades públicas, independentemente do continente, tiveram que se render a um novo modelo que pudesse restabelecer o equilíbrio entre investimento/produção/oferta de bens de um lado e renda/demanda/consumo destes bens do outro lado. Era preciso ainda se preocupar com o avanço das organizações populares e com o crescente grau de influência das ideologias anticapitalistas como o anarquismo e, em maior escala, com o marxismo que, naquele momento era experimentado na União Soviética.

Continuar lendo a respeito dos EUA acesse o link: http://www.escritaglobal.com.br/2015/08/eua-2-crise-de-1929-e-o-new-deal.html

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