ENTRE O DITO E O NÃ0-DITO EM CHICO BUARQUE

Ademar Jorge Ferreira e Cires Canisio Pereira
1. CHICO: ENTRE O SAGRADO E O PROFANO

Gesù Bambino - Jesus Menino (04 de março de 1943) ou Minha História


Esta música projetou Lucio Dalla, quando ele a apresentou no Festival de Sanremo em 1971 com o nome de “04 de março de 1943”. Por pressão da Igreja Católica, que não via com bons olhos o título “Jesus Menino”, Dalla e Paola Pallottino (letrista) optaram por outro título “04 março de 1943”. (Data de nascimento de Lucio Dalla falecido em março de 2012).
Lucio Dalla e Paolla Pallottino
Francisco Buarque de Hollanda, comumente chamado de Chico Buarque é carioca e nasceu em 1944, músico, cantor, compositor, teatrólogo e escritor. Atua principalmente como compositor e cantor. Ainda jovem, conquistou reconhecimento de crítica e de público, tão logo os primeiros trabalhos foram apresentados. Teve como parceiros vários dos maiores artistas da MPB como Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Toquinho, Milton Nascimento e Caetano Veloso.

Chico Buarque, que se auto exilara na Itália por discordar da Ditadura Militar no Brasil. Conhece Lucio Dalla e interessa-se pela Música “Gesù Bambino” ou “04 de março de 1943”. Com a anuência do autor original, fez uma adaptação tanto na letra quanto na melodia e a lançou sob o título “Minha História”, que integra o Álbum “Construção” lançado em 1971.
Nesta faixa Chico é acompanhado pelo grupo MPB-4. “Construção” foi eleito em uma lista da revista Rolling Stone como o terceiro melhor disco brasileiro de todos os tempos. Em 2012, o álbum foi eleito o sexto melhor de todos os tempos numa pesquisa feita pelo jornal “O Estado de São Paulo”.

O texto de Chico pouco altera a essência do texto de Paola Pallottino. É a história de uma mulher que se prostituía. Certo dia ela se entregou a um marinheiro que a abandonou. Contudo, engravidara dele, fazendo nascer uma criança que ela, por “ironia ou por amor”, deu-lhe o nome de “Jesus”.

Sob o foco narrativo de “Jesus”, é possível notar a magistralidade poética de Chico Buarque, que traça do 9º ao último verso, um belíssimo jogo entre o sagrado e profano, satisfazendo, então, o que o autor já anunciara como “ironia”. E, ironicamente, “Jesus”, ao nascer, é enrolado em um “manto ... santo” ( v. 9 e 10), é dado-lhe o “nome do Nosso Senhor” (v. 16), o que não o impede de viver entre “as amantes (prostitutas) e os ladrões, seus “colegas de copo e de cruz” (v. 19 e 21).

Mas qual é a mensagem poética de Chico com o seu “Gesù Bambino”? Através de vários recursos expressivos: aliterações, assonâncias, paranomásias, rimas e musicalidade, ele sugere o respeito e o apreço em relação à mãe que cria seu rebento com muitas dificuldades. O ponto central do texto é a esperança, nutrida pela mãe, de que seu filho seria um grande homem. Mas como é o destino de muitas crianças pobres como “Jesus”, ele se tornou um homem que, como a maioria, ia de bar em bar a “berrar”, “beber” e “brigar” (v. 18), entre um roubo e outro.

Chico sintetiza, com muita sensibilidade e arte, com extremo engajamento político e com refino poético e linguístico a realidade da grande maioria dos meninos dos morros que, comumente, converte-se num punhado de “homens do morro”. A exposição da realidade brasileira, associada a toda crítica aos governos que faziam “vistas grossas”, era motivo de censura por parte das autoridades brasileiras numa época em que prevalecia o regime ditatorial instalado pelos militares desde março de 1964, o qual, na ocasião, era amparado pelo Ato Institucional nº 5, decretado em 1968. O Brasil era, em 1970/71, palco de uma expressiva prosperidade econômica, além de ainda estar contagiado pelo fato de a seleção nacional de futebol ter conquistado a Copa de Mundo de Futebol em 1970.

Essa situação facilitava o trabalho das autoridades no combate sistemático às vozes críticas, libertadoras e dissonantes. Prisões arbitrárias, torturas de suspeitos, escutas clandestinas, intimidações, censura e silenciamento da imprensa eram muito comuns naquela época. As autoridades valiam-se de uma justificativa para a concepção e emprego de tanta violência: “era preciso conter o avanço das esquerdas, a dilatação do raio de influência da URSS e impedir que o país se tornasse refém do arbítrio socialista”.

Aliando, assim, o momento histórico-político ao fazer poético, o poema-música “Minha história”, faz-nos uma reflexão à cerca daqueles “anos de chumbo”, em que o embuste, a dominação sanguinolenta perfaziam este país e camuflavam as carências sociais.

É isso: ler e ouvir Chico é deleitar da sutileza, do “poder-ser-dito”, mas nem por isso do não entendido. 

VÍDEOS SIGNIFICATIVAS DE AMBAS AS VERSÕES 


Lucio Dalla no Festival de Sanremo (Itália) de 1971 (Produção RAI Itália):
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Chico e Lucio num encontro histórico  (Produção RAI Itália)
Vídeo do Program Ensaio (TV Cultura) de 1973 sob direção de Fernando Faro


LETRAS DE AMBAS AS VERSÕES
Gesù Bambino (Jesus Menino) ou 04 de março de 1943

Música de Lucio Dalla e Letra Paola Pallottino (Entre parênteses a tradução para o português.)
 
Dice che era un bell'uomo e veniva, (Dizem que era um homem bonito e vinha,)
Veniva dal mare...(Vinha do mar...)
Parlava un'altra lingua peró, (Falava uma outra língua porém,)

Sapeva amare. (Sabia amar.)

E quel giorno lui prese a mia madre, (E aquele dia ele pegou minha mãe,)
Sopra un bel prato... ah, (Em um prado...ah,)
L'ora più dolce, (A ora mais doce,)
PrIma di essere ammazzato. (Antes de ser assassinado.)
Cosi lei resto sola nella stanza, (Assim ela ficou sozinha no quarto,)

La stanza sul porto... (O quarto no porto...)

Con l'unico vestito, (Com um único vestido,)
Ogni giorno più corto. (Cada dia mais curto.)
E benchè non sapesse il nome, (E mesmo que não soubesse o nome,)

E neppure il paese... (E nem o pais...)

Mi riconobbe subito, (mi aspetto' come un dono d'amore) (Me conheceu logo,(mi esperou como um dom de amor)
Proprio all'ultimo mese. (fin dal primo mese) (Próprio no último mês. (desde o primeiro mês)

Compiva sedici anni, (Completava dezesseis anos,)
Quel giorno la mia mamma... (Aquele dia a minha mãe...)
Le stofe di taverna (As fazendas de taberna)
Le canto a ninna nanna. (Ele cantou uma canção de ninar.)
E stringendomi al petto che sapeva, sapeva, (E apertando-me ao peito que sabia, sabia,)

Sapeva di mare... (Sabia do mar...)

Giocava la Madonna, (giocava a far la donna) (Brincava de mulher, (brincava de fazer a mulher)
Col bambino da fasciare. (Com o menino para arrumar.)
E forse fu per gioco, (E talvez foi por brincadeira,)
O forse per amore... (O talvez por amor...)
Che mi volle chiamare, (Que quiz me chamar,)
Come nostro Signore. (Como o nosso Senhor.)
Della sua breve vita, il ricordo, (Da sua breve vida, a recordação,)
Il ricordo più grosso... (A maior recordação...)
È tutto in questo nome (É tudo neste nome)
Che io mi porto addosso. (Que eu tenho.)
E ancora adesso mentre bestemmio e bevo vino... (e ancora adesso che gioco a carte e bevo vino) (E ainda agora que jogo a carta e bebo vinho)
Per la i ladri e le puttane sono, (per la gente del porto mi chiamo) (Para as pessoas do porto me chamo)
Gesù bambino. (Jesus menino.)

Minha História (Chico Buarque)

Ele vinha sem muita conversa, sem muito explica
Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar
Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente, laiá, laiá, laiá, laiá

Ele assim como veio partiu não se sabe pra onde
E deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe
Esperando, parada, pregada na pedra do porto
Com seu único velho vestido, cada dia mais curto, laiá, laiá, laiá, laiá

Quando enfim eu nasci, minha mãe embrulhou-me num manto
Me vestiu como se eu fosse assim uma espécie de santo
Mas por não se lembrar de acalantos, a pobre mulher


Me ninava cantando cantigas de cabaré, laiá, laiá, laiá, laiá

Minha mãe não tardou alertar toda a vizinhança
A mostrar que ali estava bem mais que uma simples criança
E não sei bem se por ironia ou se por amor
Resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor, laiá, laiá, laiá, laiá

Minha história e esse nome que ainda carrego comigo
Quando vou bar em bar, viro a mesa, berro, bebo e brigo
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus, laiá, laiá

Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus, laiá, laiá, laiá, laiá



2. CHICO: MATERNALMENTE SOCIOLÓGICO

“Meu Guri”

Chico Buarque
A música “Meu Guri” figura entre uma das mais belas canções da Música Popular Brasileira, foi composta por Chico Buarque e lançada no Álbum “Almanaque” de 1981.

O Brasil ainda encontrava-se refém do regime ditatorial implantado pelos militares, contudo as pressões por liberdade e democracia começavam a surtir efeito com as autoridades sinalizando uma flexibilização do regime. A economia internacional sentia os efeitos de um novo “choque do petróleo” resultante das instabilidades político-institucional em alguns dos principais países exportadores de petróleo como o Irã e o Iraque. O Brasil, muito dependente das exportações e da importação do petróleo, sentia mais ainda, este cenário macroeconômico comprometeu alguns indicadores sociais e a própria capacidade de investir e de assistir do Estado, as oposições passam a se atrever mais, convocando manifestações contra o governo, a ditadura, a carestia, o desemprego, etc. Em outras nações latino-americanas o cenário não era muito diferente, isto fortalecia o desejo de mudanças em quase toda América Latina.

A música, agora sob o foco narrativo da própria mãe, diferentemente de a “Minha História”, é voz materna lamentando a condição de pobreza de sua família, que vive num dos tantos morros do Rio de Janeiro, ocupados por famílias de baixa renda e marginalizados em geral. Um de seus filhos é delinquente, contudo a mãe ignora ou prefere ignorar este fato, nutrindo a esperança de que seu filho se “arranje na vida”. Com muita ingenuidade e parcimônia a mãe ignora tudo, sobretudo o modo como o filho “ganha a vida”, a tal ponto de, por não saber ler, ignorar a notícia da morte do filho, estampada no jornal, durante perseguição policial.

Ao longo de toda canção a mãe, sempre exclama “Olha aí! Ai o meu guri, olha aí, olha aí, é o meu guri”. Esta repetição sugere que a mãe chama por seu filho de maneira orgulhosa, como se quisesse dizer “esse é meu filho”. Mas também pode deixar no subentendido, ambiguamente, o que Chico sempre fez com magistralidade, o lamento, a dor, a lamúria daquelas mães que veem seus filhos na delinquência, perdendo a vida por falta de oportunidades dignas.

O que mais inquieta e comove nesta narrativa é a admiração e o amor da mãe pelo filho, num cenário de privações de toda sorte que tem sido a razão principal do avanço da marginalidade. A canção reflete com muita criatividade e sensibilidade poética a condição geral nas favelas e morros das grandes cidades de nosso país, constituída por meninos de rua, pelo analfabetismo de homens e mulheres, pelas exíguas oportunidades que o sistema proporciona, pela malandragem. Enfim, o retrato do descaso dos governos com os setores empobrecidos da sociedade. Assim como verificado na música “Minha História” a crítica social volta a ser recorrente nos trabalhos de Chico neste período, razão pela qual era odiado pelas autoridades da época.

Há de se ressaltar, finalmente, que o fazer poético do autor agora se volta para um aspecto sociológico: o apagamento do sujeito. Diferentemente de “Minha História”, cujo protagonista já nasce sacralizado com o nome de “Nosso Senhor”, em “Meu Guri” o menino sequer nome tinha: “E eu não tinha nem nome // Prá lhe dar” (v. 7 e 8). Chico, assim, deixa claro que aqueles indivíduos não fazem parte verdadeiramente do sistema dominante. Imagina: o menino não é nomeado na história!
Elza Soares
Clamamos os leitores para que ouçam as músicas que aqui fizeram parte desse nosso ensaio. Vários já foram seus intérpretes, incluindo o próprio Chico Buarque. Mas uma interpretação tem um sabor a mais, Elza Soares, em “Meu Guri”. Uma das maiores intérpretes de música de todos os tempos. Não conseguiríamos em palavras explicar a emotividade da cantora nessa música. Talvez seja, sob nosso ponto de vista, porque Elza é mãe, é brasileira, é de origem pobre e passou por situações que certamente a fizeram emocionar durante a interpretação, além da própria canção.


VÍDEOS MAIS SIGNIFICATIVOS DA MÚSICA "MEU GURI"




ELZA SOARES INTERPRETA "MEU GURI
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Clipe da música Meu Guri de Chico Buarque


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A LETRA DA CANÇÃO "MEU GURI"
Quando, seu moço
Nasceu meu rebento
Não era o momento
Dele rebentar
Já foi nascendo
Com cara de fome
E eu não tinha nem nome
Pra lhe dar
Como fui levando
Não sei lhe explicar
Fui assim levando
Ele a me levar
E na sua meninice
Ele um dia me disse
Que chegava lá

Olha aí! Olha aí!
Olha aí!
Ai o meu guri, olha aí!
Olha aí!

É o meu guri e ele chega!
Chega suado
E veloz do batente
Traz sempre um presente
Pra me encabular
Tanta corrente de ouro
Seu moço!
Que haja pescoço
Pra enfiar
Me trouxe uma bolsa
Já com tudo dentro
Chave, caderneta

Terço e patuá
Um lenço e uma penca
De documentos
Pra finalmente
Eu me identificar

Olha aí!
Olha aí!
Ai o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega!

Chega no morro
Com carregamento
Pulseira, cimento

Relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar
Cá no alto
Essa onda de assaltos
Tá um horror
Eu consolo ele
Ele me consola
Boto ele no colo
Pra ele me ninar
De repente acordo
Olho pro lado
E o danado já foi trabalhar

Olha aí!
Olha aí
Ai o meu guri, olha aí!
Olha aí!

É o meu guri e ele chega!
Chega estampado
Manchete, retrato
Com venda nos olhos
Legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente
Seu moço!
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato
Acho que tá rindo
Acho que tá lindo
De papo pro ar
Desde o começo eu não disse
Seu moço!
Ele disse que chegava lá

Olha aí! Olha aí!
Olha aí!
Ai o meu guri, olha aí
Olha aí!
E o meu guri!...(3x)
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