ENEM: SEM DIÁLOGO OS ERROS PERSISTIRÃO

Cires CanisioPereira - Outubro/novembro de 2013



Sou professor licenciado em História pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), leciono desde 1993 em cursos preparatórios para os vestibulares e para o ENEM. Acompanho os processos seletivos pelo Brasil há vinte anos. Penso que, com estas credenciais, posso me atrever a alguns questionamentos e considerando o problema aqui destacado, sinto-me na obrigação em fazê-lo.


Na última edição do ENEM, cujas provas foram aplicadas no último final de semana, observou-se um recorde de inscritos, mais de 7 milhões, um pouco mais de 5 milhões se apresentaram para as provas. Espalhados em todo o Brasil os estudantes que aspiram uma vaga nas diversas instituições brasileiras de Ensino Superior , grande parte delas públicas e federais. Trata-se do maior concurso público já realizado no Brasil e tudo precisa estar muito bem organizado para assegurar o princípio da igualdade de oportunidade dos cidadãos diante do Estado.

Nesta edição ocorreram problemas, contudo em menor grau e em menor extensão do que das edições anteriores, graças às críticas que, quando acolhidas, revertem-se em ajustes que melhoram o concurso. Por este motivo apresento para reflexão de todos um problema que os estudantes devem ter enfrentado, a má formulação numa das questões da prova de Ciências Humanas, a questão de nº 41 do caderno amarelo, aqui reproduzida na íntegra. Tenho notícias que outras 2 (01 e 29 do Caderno Amarelo) questões apresentaram problemas semelhantes.

Confesso que até a divulgação do gabarito nutri uma expectativa de que os responsáveis fossem anular a questão, lamentavelmente não o fizeram. Apresentaram a alternativa B como resposta da referida questão. Diante disto poderia então, como manda o bom senso, enviar um apelo à instituição para que mudasse o gabarito ou, sendo o caso, anulasse a questão. Mas isso, caros leitores e prezados cidadãos, não nos é permitido. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), vinculado ao MEC é o responsável pelo ENEM, numa clara demonstração de insensibilidades ou de arrogância ou de mal uso da inteligência, não abre esta possibilidade de ouvir  vozes da comunidade que não estariam de acordo com a resposta, portanto não se dispõe a mudar o gabarito ou então anular a questão. Não há diálogo com os burocratas que se autoproclamam especialistas em educação. Poderiam os leitores argumentar. Fazendo uma pesquisa pelo Brasil, deparei com questionamentos envolvendo outras 9 questões, das outras duas na Área de Ciências Hmanas logo entendo como perfeitamente plausível ao INEP acolher tais questionamentos e abrir o diálogo, não o fará.

Mas apenas uma questão num universo de 180 questões, não seria irrelevante esta demanda?
Acontece que não é irrelevante, primeiro porque assumir erros faz bem em qualquer lugar e em qualquer situação e, segundo, porque estamos falando de um concurso que é o principal meio de ingresso de milhões de estudantes em instituições que apresentam poucas vagas, portanto um processo seletivo muito concorrido e um acerto faz muita diferença e se nada for feito injustiças deverão ocorrer. 

O presente texto tem o propósito de alertar a todos para que não permitamos, mesmo que remotamente, que a injustiça ocorra.
Publico para que o leitor acompanhe a questão 41 Ciências Humanas (Caderno de provas Amarelo), 


O canto triste dos conquistados:
os últimos dias de Tenochtitlán
Nos caminhos jazem dardos quebrados;
os cabelos estão espalhados.
Destelhadas estão as casas,
Vermelhas estão as águas, os rios, como se alguém as
tivesse tingido,
Nos escudos esteve nosso resguardo, 
mas os escudos não detêm a desolação...

PINSKY, J. et al. História da América através de textos. São Paulo.Contexto, 2007 (fragmento).

O texto é um registro asteca, cujo sentido está relacionado ao(à) (grifo meu)

a) tragédia causada pela destruição da cultura desse povo.
b) tentativa frustrada de resistência a um poder considerado superior.
c) extermínio das populações indígenas pelo Exército espanhol.
d) dissolução da memória sobre os feitos de seus antepassados.
e) profetização das consequências da colonização da América.

Gabarito Oficial Letra B

Estamos diante de uma questão que, a princípio, é meramente interpretativa. Lê-se o texto e em seguida encontra-se uma alternativa que interpreta ou sintetiza o conteúdo central do texto. Acredito que a alternativa B interpreta o texto, contudo as alternativa A (em menor intensidade) e a C também interpretam o texto.

Sobre a conquista hispânica na América, o poeta chileno Pablo Neruda, morto em 1973, sintetizou da seguinte maneira. "A fome, a espada e a cruz dizimaram a família selvagem".

Pablo Neruda
A "fome" significa a substituição dos "modus vivendi" e dos "modus operandi" nativos por novas relações e ritmos que estivessem em sintonia com os objetivos da empresa colonial, o que acarretou subnutrição, morticínio e desaparecimento de nativos. A "espada" significa a inócua resistência dos nativos que, mesmo em maior número, não dispunham de técnicas e instrumentos capazes de enfrentarem a superioridade bélica dos espanhóis. E a "Cruz" que significa a destruição dos valores nativos que aos olhos dos europeus cristãos eram pagãos e que, por conta disso, precisariam ser destruídos para o instituto dos valores cristão.

Penso que a maior parte dos manuais, livros e recursos disponibilizados aos alunos de 2º grau no Brasil aborda este assunto da forma sintetizada acima. Neste ponto o ENEM pareceu sensível a isto, mas ficou só nisto, o que me pareceu um lamentável erro.

Recorramos ao enunciado, logo em seguida ao texto apresentado, pede-se "O texto é um registro asteca, cujo sentido está relacionado ao(à)" (Opção A) " à tragédia causada pela destruição da cultura desse povo", mas também a uma (Opção B) "tentativa frustrada de resistência a um poder considerado superior" e, também ao (Opção C) "extermínio das populações indígenas pelo Exército espanhol". 

Reconheço que a alternativa B está mais próxima do texto, contudo a questão pede não apenas uma interpretação, ela se preocupa em estabelecer uma conexão entre o "sentido" ou significado ou o núcleo central do texto ao processo de conquista em seu sentido mais geral que, ao meu ver, corrobora com a impressão que este evento histórico causou ao poeta acima mencionado (que dispensa comentários), é caracterizado pelos registros das letras "A", "B" e "C".

É por tudo isso que a questão deveria ser anulada para que não houvesse a possibilidade de injustiça. Contudo sou cético quanto a isto, pois o fato de o INEP  não permitir o debate, isto é a confrontação do contraditório já é um sinal de que a última palavra é do INEP, mesmo que injustiça ocorra e mesmo que isto signifique um dolo irreparável à ciência e à educação.


Não estou afirmando que INEP tenha se equivocado, desde que fosse possível um debate sobre as questões e a possibilidade de revisão do gabarito ou anulação de uma questão. O debate poderia permitir a construção de um consenso e o convencimento de uma parte ou outra parte, certamente num debate desta natureza, os antagonistas deveriam estar abertos também pra serem convencidos. Estaria disposto a acolher, não o erro, mas a argumentação divergente, por outro lado usaria neste debate os argumentos já enunciados neste texto para que minha posição pudesse se aceita. Acontece que este debate não é permitido. Não restando da minha parte outra opção senão dar publicidade ao meu ponto de vista.

Erros como este, enunciados e alternativas que induzem a repostas não coincidentes com a que a questão espera, jamais poderiam acontecer.  O INEP precisa urgentemente rever esta posição de não permitir o questionamento de suas questões e dos gabaritos sugeridos, ou melhor, da forma como se encontra, gabaritos impostos.

Lembro a todos que em vários processos seletivos que acompanho e já acompanhei o debate é permitido, questões são anuladas e gabaritos modificados. Sou um entusiasta da ideia de um exame unificado nacionalmente como meio principal para a seleção de estudantes para as instituições de cursos superiores. Mesmo que questões passem por uma simulação, antes de serem selecionadas para o concurso, reitero que o erro pode persistir, como o relatado neste texto.

O ENEM é uma grande ideia, contudo precisa se valer de expedientes que estejam a altura desta grande ideia. A indisponibilidade ao debate sobre as questões e os seus gabaritos pode macular e até comprometer a sua grandeza. Felizmente o ENEM tornou-se uma política de Estado, não pertence a este ou aquele governo, mas os organizadores conceptores do concurso não podem ficar imunes aos erros que cometem, tampouco podemos esperar novas eleições para que peças sejam trocadas, contratos sejam refeitos, reparos sejam feitos.

Em 2014 teremos outra edição, estas mudanças precisam ser feitas, funcionários cujo despreparo fique comprovada precisam ser afastados imediatamente. A esperança não pode e não deve perecer, aguardo mudanças.
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