ELOMAR E A SUA "ARRUMAÇÃO"

Cires Pereira - Setembro de 2013



Obra de arte do artista plástico Orlando Celino
Capa do disco Na Quadrada das Águas Perdidas  de Elomar Figueira

Todos que me conhecem sabem muito bem a admiração que tenho pelo conjunto da obra artística de Elomar Figueira de Melo, um nordestino do Estado da Bahia e morador da "casa dos Carneiros" no "Vale do Rio Gavião". Pela sua vasta, refinada e bela obra o tenho como um dos mais importantes compositores dos tempos contemporâneos. Não conheço uma peça musical de Elomar que possa comprometer a profundidade e a textura de seu repertório. Conheço pelo menos 70 % de seu trabalho publicado. 

Trata-se de um olhar de quem aprecia a música, não sou nenhum expert ou crítico no assunto, tampouco "dedilho" ou sopro quaisquer notas. Por outro lado procuro ouvir tudo que se apresenta o que me deixa mais a vontade e, quem sabe, com autoridade para ser seletivo.

A obra de Elomar é pouco conhecida hoje, é uma pena, contudo ela já é imortal e os tempos vindouros haverão de ser mais justos com esta obra. Pelo menos, não me canso de "deglutir" esta obra e, quanto mais aprecio, mais gosto.


Penso que não estou sozinho nesta impressão em relação à Elomar. Este compositor e sua obra tem sido objeto de estudos de muitos especialistas em música, cultura popular e literatura e tem sido aplaudido por muitas pessoas que apreciam uma boa e seleta música, um bom exemplo foi  Vinicius de Morais. Leia o que Vinicius disse sobre Elomar em em 1973.

"Pois assim é Elomar Figueira de Melo: um príncipe da caatinga, que o mantém desidratado como um couro bem curtido, em seus 34 anos de vida e muitos séculos de cultura musical, nisso que suas composições são uma sábia mistura do romanceiro medieval, tal como era praticado pelos reis cavalheiros e menestréis errantes e que culminou na época de Elizabeth, da Inglaterra; e do cancioneiro do Nordeste, com suas toadas em terças plangentes e suas canções de cordel, que trazem logo à mente os brancos e planos caminhos desolados do sertão, no fim extremo dos quais reponta de repente um cego cantador com os olhos comidos de glaucoma e guiado por um menino anjo a cantar façanhas de antigos cangaceiros ou "causos" escabrosos de paixões espúrias sob o sol assassino do agreste".

Trouxe um belo trabalho deste vasto repertório que se tornou uma espécie de hino dos cantadores do Brasil, sobretudo das regiões de Minas, Bahia, Goiás e São Paulo. A música "Arrumação" uma das faixas do álbum "Nas quadradas das águas perdidas" lançado em 1978.  Arrumação é a música mais famosa de Elomar, deu nome a um programa de música regional na TV Minas durante muitos domingos. O programa "Arrumação" foi apresentado por outro compositor, cantador e contador  incontestável da cultura popular brasileira, Saulo Laranjeira de Minas Gerais.

Vários cantores, cantoras e grupos gravaram esta música repercutindo numa razoável diversidade de arranjos. No vídeo acima a interpretação fica por conta do grupo mineiro "Uakiti", este grupo tem se apresentado pelo mundo inteiro, sempre com apresentações magistrais e se valendo de instrumentos de sopro alternativos, destacando o uso de tubos de PVC. Nesta apresentação, Uakiti é acompanhado pela Orquestra Sinfônica de Minas Gerais.

Acesse o link abaixo e acompanhe a apresentação do Grupo Uakiti


A música "Arrumação" enfatiza uma conduta típica do sertanejo ou catingueiro -  a arrumação - que consiste em estar atento para a intempéries próprias do lugar em que se vive. A música destaca o fato de que o sertanejo ou catingueiro precisa estar sempre preparado para enfrentar os eventos que poderiam bagunçar, desarrumar ou comprometer seu patrimônio ou até sua vida.

Abaixo um vídeo com Tadeu Franco interpretando sua "Arrumação"

Acesse


Três elementos constitutivos de uma típica arrumação, presentes na música:

1- É preciso preparar o feijão para o plantio, futucando (mexendo) a tuia para a seleção dos grãso-sementes e o alho roxo precisa ser colhido antes das chuvas que se avizinham evidente por conta do "forro ramiado" ou céu com nuvens baixas e espessas. 
2 - É preciso guardar as criações, porcos e bodes nos chiqueiros, pois a "sussarana vai passar" que quer dizer que a onça sussuarana está prestes a passar pelo lugar. 3 - estar atento e vigilante com a possibilidade de pilhagens ou roubo que poderão acontecer por conta da passagem, por estas bandas de ciganos.

Significados dos termos usados pelo catingueiro ou sertanejo, colhidos por Elomar para esta música:
 
Balai = Balaio 
Chiquera:  Chiqueiro
C’ua = com + uma.
Forro ramiado  = céu que anuncia chuva.
Lavora tardã = lavoura que precisa de mais tempo para dar frutos
Panicum = Balaio com boca maior
Prisunha = animal sagaz, ágil, bom pra cassar.
Seda branca = bode que reproduz
Trimina: Termina
Tuia = Caixa para armazenar cereais ou Caixa de Entulhos e ferramentas usadas nas atividades agrárias
Zagaia = (c’ua zagaia só  quer dizer de um golpe)

Arrumação
Josefina sai cá fora e vem vê
Olha os forro ramiado vai chuvê
Vai trimina riduzi toda criação
Das bandas de lá do ri gavião
Chiquera pra cá já ronca o truvão
Futuca a tuia, pega o catadô
Vamo planta feijão no pó
Futuca a tuia, pega o catadô
Vamo planta feijão no pó
Mãe purdença inda num cuieu o ai
O ai roxo dessa lavora tardã
Diligença pega panicum balai
Vai cum tua irmã, vai num pulo só
Vai cuiê o ai, o ai da tua avó
Lua nova sussarana vai passá
Sêda branca, na passada ela levô
Ponta d´unha, lua fina risca o céu
A onça prisunha, a cara de réu
O pai do chiquêro a gata comeu
Foi um trovejo c´ua zagaia só
Foi tanto sangue que dá dó
Os cigano já subiro bêra ri
É só danos, todo ano nunca vi
Paciênca, já num guento as pirsiguição
Já só caco véi nesse meu sertão
Tudo que juntei foi só pra ladrão
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