12 de abril de 2014

CARTA AO LOBÃO

Cires Pereira
Capa de seu livro
É muito provável que esta carta não chegue até você, menos provável ainda que você a leia. A probabilidade é ainda mais remota de que você concorde com o seu conteúdo.  A sua concordância poderia levá-lo a mudar de atitude, mas isto pouco importa. 


Antes, porém sugiro aos leitores que leiam o livro autobiográfico de Lobão "50 anos a mil", publicado recentemente. É no mínimo instigante conhecer um pouco mais da sua trajetória.

Lobão agora você é um colunista, estou na expectativa de que você continue formulando ideias e juízos que até o momento te deram notabilidade, confesso que pouco sei sobre seu trabalho artístico. Particularmente não estou entre aqueles que gostam de Rock and Roll, contudo me diverte alguma coisa incluindo trabalhos teus como “pan-americana” e 
"Décadence avec elégance". Nesta última você diz:

"Mas e daí? Ela se acha chic
Troca seu destino por qualquer acaso"

Você é no mínimo ousado, pois tem sido público e notório que a linha editorial da Revista Veja mudou muito de uns anos pra cá. Muito tem se falado que a posição crítica da Revista Veja e de seus articulistas não tem poupado os governantes atuais, sobretudo aqueles identificados ou alinhados com o "consórcio político" que amparou o Governo Lula e agora ampara o Governo Dilma. "Veja" escolheu seu lado, é legítimo e cabível no Estado de Direito Democrático.

Decididamente não estou disposto “a anteriori” criticá-lo ou até, como alguns tem feito, desqualifica-lo por sua atitude. Como você  decidi ser um colunista num site em minha cidade que tem uma forte audiência e acolhida em nossa região. Você deve conhecê-lo, senão acesse-o www.paginacultural.com.br.  "Página Cultural" não tem a mesma audiência e extensão que tem a "Revista Veja" no território nacional. Optei por ingressar no corpo de colunista deste site por me identificar com a sua linha, sobretudo com o seu ecletismo estético, intelectual e político. Fiz isto em busca de um prazer pessoal e estou muito satisfeito com minha escolha  e cada dia mais desafiado. Isto me "engrandece".

E você Lobão sente-se seguro com a escolha? Crês que esta escolha te dará prazer? Projeção? Ou seria outra coisa que desconheço?

Espero poder ler todos os seus trabalhos, nessa sua nova empresa. Muitos estão possessos com você, para estes você se colocou ao lado da mais visível posição reacionária ou conservadora que se tem hoje, em termos de mídia, no nosso país. 

Afinal de contas você pensa que a "Revista Veja" é isso mesmo? Intuo que você, sendo uma pessoa esclarecida, pensa assim também, mas agora "não seria no mínimo delicado" expressar isto, não é mesmo? Mas suponhamos que você não pensa assim, ai queira me desculpar pelo meu erro de avaliação. Mas há de convir comigo que meu erro tem um atenuante, você mesmo, pois quase tudo que fizestes e que dissestes até o momento tem me parecido o oposto do posicionamento da linha editorial da Revista e dos seus articulistas. 

Isto eu posso dizer, pois leio tanto eles quanto “leio” você!

Ocorreu-me que, antecipadamente desculpe pelo meu atrevimento, seja mais uma de suas brincadeiras. Mas tirei isto rapidamente da minha cabeça, pois é um absurdo imaginar que um homem como você, mesmo não te conhecendo, “fosse agir como um moleque”.

Retomando o foco deste texto ou falando sério te pergunto (Mais uma vez desculpe-me pelo meu "desvio moleque e irresponsável" expresso no parágrafo anterior), e sua eterna luta em prol da classe artística vai continuar? Continuará soltando os seus costumeiros “petardos” na indústria fonográfica, na mídia (incluindo a Veja) que poucas luzes lançam sobre os trabalhos de gente séria e competente que tem feito trabalhos sérios e competentes em seu meio?

Mesmo que você tenha recentemente sido econômico, beirando a complacência, nas críticas ao mais recente e nefasto regime ditatorial brasileiro. Dissestes que“torturadores do regime arrancaram apenas umas unhazinhas”. Das duas uma, ou você concorda com o que você disse, ou você estava apenas aprontando mais uma. 

 
Está vendo Lobão, você acaba me induzindo a indagar.

Terá sido seu escárnio ou terá sido o seu revisionismo em relação aos ditadores ou nenhuma destas opções que levou “Veja” a te contratar? Ainda bem que você facilitou o meu trabalho em responder a esta difícil indagação ao afirmar em seu Twitter: “muito mais bacana e honroso ser um colunista da Veja do que um mísero comunista com inveja, não é verdade?” 

Aqui você foi muito longe, Lobão. Fiquei frustrado, pois pareceu-me inócua a leitura do seu livro. Mas como disse Chico "Te perdoo por me traíres" e reitero o apelo para que os leitores não me deem ouvidos neste momento, comprem e leiam o livro "50 anos a mil".

Respondendo à indagação, fico com a terceira opção. Creio que “veja” te contratou para ganhar leitores, anunciantes e dinheiro com você. Ela está sendo coerente com seu papel. Isto é previsível, Não espero outra coisa da “Veja” senão isto, afinal de contas na “selva capitalista” coloca-se até o “fígado” na disputa não é mesmo Lobão? Mas você ainda concorda com este juízo sobre o capitalismo?

Tendo por base a minha resposta, concluo que você  está se perfilando nas hostes que sempre foram combatidas por você. Meio que a partir de agora você está "dormindo com o inimigo" ou seria mais um diagnóstico de síndrome de Estocolmo?

Isto é desvio de caráter ou é patológico?

Diante da remotíssima possibilidade de ser patológico, lamento que esteja diante de mais um que abdicou de uma ideia para entregar-se a outra oposta, por conveniência”. Ainda não sei seu gesto é "elégance", embora não tenha dúvidas de que seja "décadence"

Parafraseando você, se me permite. Mas e dai ele se acha chic, troca seu destino por qualquer acaso. 

Apequenar, Lobão!? ´É isso!
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