CARTA ABERTA AO TINGA (CRUZEIRO)

Cires Pereira, 13 de fevereiro de 2014.


TINGA - Foto: Tingablog
PREZADO TINGA, desde que "me conheço por gente" torço pelo Cruzeiro de minha "Minas", acompanhei com muita satisfação a campanha vitoriosa de nosso time no campeonato nacional em 2013, é possível que seja quase uma unanimidade de que nosso time ganhou com justiça, pois jogou o mais bonito e o mais eficiente futebol. Iniciamos 2014 com o "pé direito", vencemos todas as partidas oficiais que disputamos, exceto a partida válida pela primeira rodada do campeonato "Libertadores da América". Fomos surpreendidos no Peru pelo Real Garcilaso. Estamos no começo e penso que temos ainda razoáveis chances de superarmos esta fase do campeonato.

Mas hoje não escrevo pra falar sobre futebol, quero falar sobre você.

No segundo tempo desta partida, você entrou substituindo outro volante do nosso time, mesmo com esta e outras alterações não tivemos sorte e competência para reversão do placar adverso, paciência. Acompanhando pela televisão, pude notar que grande parte da torcida local passou a agir de forma surpreendente, ao invés de vaiar nosso time ou aplaudir o time local passou a emitir um som que lembra o som dos primatas, o curioso que este som ficava mais intenso quando você tocava na bola. Por diversas vezes pude notar isto o que, a meu ver, configura uma manifestação de racismo. Você sendo de pele negra é um autêntico afro-brasileiro.

Hailê Selassiê
 Sempre te admirei por conta do seu "corte de cabelo" estilo rastafári, creio que você pelo menos admira movimento rastafári que tem adeptos no mundo todo, suspeito que nutre grande respeito pelo Reggae, por Bob Marley (cantor jamaicano de reggae) e pelo ex-Imperador etíope Hailê Selassiê (1892-1975) que comandou sem êxito a resistência do povo etíope frente aos fascistas italianos que invadirem e ocuparam aquele país em 1936. Sempre nutri um grande respeito por Hailê Selassiê, por isso apropriarei de trechos de uma fala dele na Conferência da liga das Nações em 1937 para chegar ao ponto mais importante desta carta.
Um homem de bem é notado mais pelos seus gestos do que pelo que ele diz dele mesmo. Seu gesto ontem em resposta às repetidas e infames agressões verbais comprovou que você é um destes homens de bem. 

Mesmo triste e tão indignado quanto eu e muitos que acompanhavam a partida você, indagado pelo repórter, reagiu com as seguintes palavras:

"No começo achava que era uma simples vaia, até por a gente ser um pouco conhecido aqui e ter jogado algumas Libertadores. Depois que eu vi que era um insulto racista, fiquei um pouco chateado, mas eu permaneci focado na partida, queria ganhar. A gente fica bem chateado por acontecer uma coisa dessa”

Respondendo porque não se retirou do campo (muitos fariam isto), você emenda:

“Estava muito focado em conseguir a virada, dar uma resposta dentro de campo, por isso que eu estava brigando tanto, acabei me motivando com aquilo. Confesso que fiquei surpreso, já é minha oitava Libertadores, nunca tinha acontecido isso. Fico bem chateado”.


Mas o ponto mais importante em sua reação, que é nestas circunstâncias um retumbante gesto, foi a sua conclusão:

“Joguei alguns anos na Europa onde se fala muito de racismo e nunca aconteceu isso comigo. De repente, em um país tão próximo, tão parecido com a gente pela mistura, acontece uma coisa dessa”. Eu trocaria todos os meu títulos pelo fim do preconceito. Trocaria por um mundo com igualdade entre todas as raças e classes”.
Prezado Tinga, mesmo não conhecendo você, tenho convicção de que você que parece ser uma pessoa culta, educada e equilibrada repudia generalizações. Assim quero crer que concordamos num ponto, os insultadores racistas são uma minoria no nosso país, no Peru, na América Latina e em todo o mundo. Tenho certeza que seu repeito pelo Peru, como por qualquer outro país de nossa tão sofrida e tão encantadora América Latina, continua inabalado. Minha ira, tanto quanto a sua, tem um foco, aqueles que ao insultarem você insultaram a todos os homens e mulheres de bem tanto do Peru quanto do Brasil.

É óbvio que este insulto racista não pode, como nenhum outro crime pode, ficar imune, aguardo como você as providências das autoridades peruanas e da Comembol nos planos civil e esportivo. Mas quero enfatizar a sua serenidade mesmo num momento de profunda tristeza e mesmo sentindo-se humilhado, creia que eu muitos sentiram a mesma coisa. Evocando outro grande homem, Martin Luther King Jr, reproduzo um trecho de seu discurso mais célebre feito em agosto de 1963 curso do movimento antissegregacionista estadunidense: 

"Tenho um sonho de que meus quatro filhos viverão um dia em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo teor de seu caráter".
Concluo pagando uma promessa que fiz no início desta carta transcrevendo um trecho do discurso de  Hailê Selassiê na Liga das Nações feito em 1936,cujo objetivo era sensibilizar os governos a auxiliarem a resistência etíope contra os fascistas italianos.

"Enquanto a filosofia que declara uma raça superior e outra inferior não for finalmente e permanentemente desacreditada e abandonada; enquanto não deixarem de existir cidadãos de primeira e segunda categoria de qualquer nação; enquanto a cor da pele de uma pessoa não for mais importante que a cor dos seus olhos; enquanto não forem garantidos a todos por igual os direitos humanos básicos, sem olhar a raças, até esse dia, os sonhos de paz duradoura, cidadania mundial e governo de uma moral internacional irão continuar a ser uma ilusão fugaz, a ser perseguida mas nunca alcançada. E igualmente, enquanto os regimes infelizes e ignóbeis que suprimem os nossos irmãos, em condições subumanas, em Angola, Moçambique e na África do Sul não forem superados e destruídos, enquanto o fanatismo, os preconceitos, a malícia e os interesses desumanos não forem substituídos pela compreensão, tolerância e boa-vontade, enquanto todos os Africanos não se levantarem e falarem como seres livres, iguais aos olhos de todos os homens como são no Céu, até esse dia, o continente Africano não conhecerá a Paz. Nós, Africanos, iremos lutar, se necessário, e sabemos que iremos vencer, pois somos confiantes na vitória do bem sobre o mal".

Ao final deste mesmo discurso o lider africano teria dito em tom profético, hoje somos nos os agredidos, amanhã poderão ser todos você. Três anos depois a Europa começa a "cair" diante da sanha do III Reich, era o início da 2ª grande Guerra que ceifou 40 milhões de homens e mulheres. Em 1941 Hailé Sélassie foi reconduzido ao seu trono graças à resistência etíope, esta auxiliada no final pelos "aliados" que demoraram um tempo precioso para entenderem o apelo de Hailé. Por isso caro Tinga, esperamos que as autoridades punam os seus (nossos) insultadores o quanto antes possível, esta asquerosa e abjeta onda não pode progredir.


Caro Tinga os meus respeitos, a minha solidariedade e a minha admiração.
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