CARNAVAIS DIAMETRALMENTE OPOSTOS: RECIFE-OLINDA / RIO-SÃO PAULO

 Cires Pereira

Bonecos de Olinda
Nada se compara ao carnaval do eixo Recife-Olinda em Pernambuco do nosso Nordeste. Um carnaval de todas as tribos, faces, tendências e ismos. Um carnaval respeitável, pois mantém as tradições e, ao mesmo tempo, atrevido porque não teme as as inovações. Mas acima de tudo um carnaval inclusivo, um carnaval com e sem abadás, com e sem cordões de isolamento, com e sem tribunas de honra, com e sem camarotes. Um carnaval de tudo e de todos. 

Pude acompanhar a abertura do carnaval das margens do "Capiberibe" há doze anos atrás, confesso que tudo que vi deixou-me embasbacado. Um show(zaço) com Leila Pinheiro, Lenine, Antônio da Nóbrega, Alceu Valença, Elba Ramalho e o grande percussionista Naná Vasconcelos. As ruas do Bairro do Recife que convergiam para o "Marco Zero" estavam agitadas. Passistas de frevo se apresentavam enquanto desfilavam blocos e maracatus, além de figuras presentes na festa momesca, como os papangus e os caboclos de lança.

Recife - Marco Zero - Galo da Madrugada (bloco com 2 milhões de passistas)
A festa momesca começou ao entardecer de sexta feira é só terminou na madrugada de quinta-feira. Na abertura, acompanhei 500 batuqueiros de 14 nações de maracatu de baque virado regidos por Naná Vasconcelos. Estavam os batuqueiros, belamente conduzidos pelo grande Naná, imbuídos de um propósito: comprovar o quão caleidoscópico é  carnaval do eixo Recife-Olinda. Em seguida houve um desfile do Centenário do Frevo reunindo um cortejo de blocos de pau e corda, a agremiação Flor da Lira, Madeira do Rosarinho, Pierrô de Dão José, Bloco da Saudade, Eu Quero Mais, estandartes de clubes e troças e caboclinhos.

Recife
Para onde quer que você olhava  via cenas completamente distintas, passistas, brincantes, crianças, idosos, mulheres, casais, instrumentistas, fantasias, músicas, enfim todos numa explosão de alegria e anunciadores que ali a cultura é respeitada. Lembrei-me de Antõnio de Nóbrega quando canta "Vinde, Vinde, moços e velhos. Vinde todos, admirai, Como isso é bom, isso é belo. Como isso é bom, é bom demais."

Antônio Nóbrega - Recife

Mas o mais incrível é que isto ocorreu há muito tempo e sai ano entra ano as cenas se repetem, se reciclam e se recriam. Os desfiles de Escolas de Samba no Eixo Rio-São Paulo continuam os mesmos, a preocupação principal é o luxo emoldurado por uma estética sexista que beira o patético. O objetivo é fazer "um desfile perfeito e bonito que tenha o cheiro da comunidade" (quanta hipocrisia). O objetivo principal deste organizadores é criar "conteúdo" a ser transmitido pelo Brasil pela Globo e, juntando a bilheteria, encher os bolsos destes mesmos organizadores para que tudo aconteça da mesma forma no ano seguinte. Chamamos isto de "indústria cultural", os desfiles de Escolas de Samba  no Rio de Janeiro e em São Paulo  e os "desfiles" (mais parecem uma carreata de caminhões que berram) em Salvador.

Carnaval de Salvador, ou seria do Bradesco?
Em Salvador nem tudo está perdido, por mais que as previsíveis musas cantantes que, embora belas cantam as mesmas coisas sob o comando de uma musica(quinha) que "virou sucesso" graças aos "jabás" concedidos aos programas dominicais sonolentos comandados por tipinhos (Gugu, Faustão, Faro, etc) das televisões de alcance nacional. Mas ainda resta "oxigênio" por baixo daqueles quizilentos treminhões-elétricos. Mas ainda resta "oxigênio"para além daqueles abadás multicoloridos que emolduram uma companhia de cerveja ou um cartão de crédito, abadás que revestem os corpos juvenis dos que podem pagar pra sair no asfalto perto do som, dentro das cordas e bem distante da maioria de menos (muito menos afortunados). Ainda resta "oxigênio", é possível respirar desde que esteja distantes (bem distantes) dos cantores de pagode, de música sertaneja e de funk convidados pelas "rainhas do carnaval soteropolitano" - Sangalo, Leite e Mercury.

Desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro ou da "Schin"?
O Carnaval em alguns cantos do Brasil, onde os holofotes são mais intensos reafirmadores de uma fama discutível,  há muito tempo deixou de ser uma festa multicultural e popular. O "Arlequim" nestes cantos já não chora mais pelo amor da "Colombina", mas chora por ter sido abandonado. "Pierrot" nem se importa mais. Resignado, o Pierrot prefere retornar ao velho continente pra encontrar alguém que o acolha com deferência. Os risos nos salões agonizam, falta música, faltam músicos, faltam foliões, faltam máscaras, faltam blocos. Provavelmente os encontraremos nas ruas que, nestes mesmos cantos do Brasil, são cercadas por cordas e seguranças privados. O público, outrora de salão, quer desfilar ou "pular feito pipoca", agora brinca  sob os olhares atentos, resignados e, preferivelmente, distantes da imensa maioria que não pode pagar. 

Por uma questão de segurança, claro!
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