12 de abril de 2014

BERTOLD BRECHT

Cires Pereira e Paulo Irineu B. Fernandes

BERTOLD BRECHT - 1898 - 1956
Havia na Alemanha hitlerista (1933-1945) uma fração majoritária da sociedade civil que amparava e aplaudia o regime nazista, desta fração grande parte o fazia por medo de retaliações que, comumente, era a morte. A outra fração da sociedade, embora minoritária era expressiva e constituída pelos inconformados e resistentes ao nazismo. Pessoas que arriscavam suas vidas para livrarem a Alemanha deste pesadelo que foi o III Reich. 


Dentro e fora da Alemanha, proliferavam as resistências antinazistas constituídas por judeus, militantes de esquerda, liberais-democratas e os cidadãos dos lugares ocupados pelos Alemães. Com o início da 2ª guerra estas resistências receberam os providenciais auxílios dos governos "aliados", formando então uma força, que se comprovou, imbatível contra o "Eixo" (Itália, Alemanha e Japão). O Dramaturgo alemão Bertold Brecht foi uma destas vozes contra o totalitarismo.

Bertold Brecht nasceu em Augsburg (Alemanha) em 1898 e faleceu em Berlim no ano de 1956,era principalmente dramaturgo e poeta. Militante anti nazista, engrossava as fileiras do movimento em defesa de uma Alemanha comunista. 


 Kurt Weill e Lotte Lenya e Bertolt Brecht em 1930
No final da década de 1920 Bertold Brecht conheceu o músico alemão Kurt Weill (1900-1950) e juntos compuseram a "Ópera dos Três Vinténs" que teve uma excelente acolhida. Até 1933 concebeu grandes textos para o teatro, destaque para "A Mãe" e "Homem por Homem". Os nazistas assumiram o governo em 1933 e no em curto espaço de tempo implantaram um regime monolítico ao proclamarem o "III Reich" conferindo à Adolf Hitler a condição de Führer. O governo passou a controlar os institutos educacionais, a imprensa e as artes e seus artistas de uma forma geral. Baniu opositores, suprimiu liberdades e aparelhou todos os órgãos constitutivos do Estado Alemão, amparado pela máxima:
Ein Volk, ein Reich, ein Führer  - "Um povo, um Reich, um líder"
Cena de Metrópolis 1927 de Fritz Lang
Brecht deixou a Alemanha e estabeleceu-se na Dinamarca até 1941, quando então escreve a "Vida de Galileu", "Mãe Coragem e seus filhos". Em razão da invasão das tropas do III Reich na Dinamarca, Brecht cruzou o Oceano Atlântico e estabeleceu-se em Nova Iorque. Este também tinha sido os destinos do compositor Kurt Weill e Fritz Lang (1890-1976) um cineasta autríaco-judeu também crítico contumaz do nazi-fascismo, célebre diretor de "Metrópolis" e que havia estabelecido uma parceria com Weill. Brecht retorna à Alemanha dois anos depois da rendição do III Reich, estabelecendo-se em Berlim a partir de 1948.

Brecht parece ter uma obstinação, focalizar e compreender a alienação do ser humano num contexto de hegemonia do capital. Focalizar compreender a alienação tem um propósito, destrui-la. 

No poema "O analfabeto Político" esta questão é central, a compreensão deste texto depende do entendimento que se faz do conjunto da obra brechtiana e, sobretudo dos propósitos estratégicos de sua arte engajada em prol da transformação social. Brecht foi muito influenciado pelo maior nome do teatro russo de todos os tempos, Constantin Stanislavski. A forma épica do teatro, resgatada por Brecht, é a única com condições de elucidar e desmistificar, pois se vale da dialética, as relações humanas. O seu didatismo possibilitou o esclarecimento que se constituiu no primeiro passo de uma ação pretensamente mudancista. 

Fritz Lang e Thea von Harbou ainda em Berlim - 1920. FOTO: Waldemar Titzenthaler
"Para Brecht, o objetivo fundamental da arte (no seu caso, o teatro) não é tanto a catarse, mas sim o protesto e o convencimento. A negação de um dos princípios mais fundamentais do teatro e da teoria estética em geral – a catarse – traz consigo outras consequências: uma peça não é uma experiência predominantemente individual, assim como a transformação da sociedade não se dá a partir de uma reconciliação do homem consigo mesmo; ambas envolvem um elemento coletivo fundamental. Brecht, no entanto, não permite que essa objetividade o afaste totalmente da subjetividade. Assim, a possibilidade de comunicar a negatividade se materializou em suas obras. Neste sentido, a linguagem artística torna-se uma maneira de apresentação do ausente, ela é uma linguagem cognitiva, mas com uma cognição que subverte o positivo, ela é uma cognição subversiva. Os personagens de Brecht, por exemplo, cantam paraísos e esperanças que transformaram o amor e o azul do mar em pensamento político. De certa forma, isto está condensado nos cinco versos a seguir, de Brecht:
Dentro de mim há uma luta entre
O deleite de uma cerejeira em flor
E o horror de um discurso de Hitler.
Mas só este último
Me força a escrever.
Vale salientar que muito embora Brecht fosse um artista engajado ao movimento comunista, jamais quis se envolver com o "realismo socialista", este sim um movimento a serviço das burocracias totalitaristas na URSS e no Leste Europeu. As peças de Bertold Brecht eram também proibidas na URSS de Stalin.

Crítico do capitalismo, Brecht o caracterizava como uma sociedade monopolista de classes. Este monopolismo também prevê e provê as necessidades e os (mínimos) interesses da classe trabalhadora, ainda que estabelecidos pela classe dominante. E, quanto mais os explorados sucumbem ao poder existente, mais a arte deles se distancia. Ao distanciar-se da práxis de mudança, a arte corre o risco de perder a sua verdade, o que levou Brecht a escrever:

“Uma obra que não mostre soberania e que não outorgue ao público soberania perante a realidade de modo nenhum é uma obra de arte”.

Desta forma, a arte revolucionária e a atitude de protesto ainda não seriam a linguagem da libertação, pois não expressam a necessidade de todos, mas tão somente de uma parte. E o artista, que se identifica com o proletariado, continua na “marginalidade”, não devido à sua origem, mas devido à transcendência da arte, que torna inevitável o conflito com a práxis política.
 

 O "drama" para Brecht não pode e não deve apenas reproduzir a sociedade de seu tempo. O propósito é construir um juízo desta sociedade constituído por um conteúdo e uma forma possibilitador da ação transformadora, pelos excluídos, no ambiente social a rigor excludente. Escolhi um poema de Brecht que se encaixa neste propósito de questionamento da realidade como um meio para a consciência política (desalienação) - "Perguntas de um trabalhador que lê".
"Operários" 1933 - Tarsila do Amaral
A leitura por si só não assegura o questionamento da realidade em que se vive, não basta apenas estarmos informados da realidade, é necessário acolhermos a realidade de forma crítica procurando compreender o que levou ao fato em estudo e as relações deste fato (fragmento da realidade) com outros próximos e distantes, simples e complexos, etc. Ler não significa somente questionar a realidade, mas também o de interpretar o sentido desta realidade. O poema "Perguntas de um trabalhador que lê" nos permite reconhecer a alienação e a ideologia presente na produção das coisas e do mundo.

Neste poema, Brecht enfatiza a apropriação feita pelos lideres que se apresentam com heróis, do produto do labor ou trabalho coletivo. Reis, nobres, generais, clérigos passam uma versão essencialmente falsa de que teriam sido eles os responsáveis pelas mudanças e pelas obras e não as sociedades como um todo.

Perguntas De Um Trabalhador Que Lê
Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis.
Arrastaram eles os blocos de pedras?
E a Babilônia várias vezes destruída -
quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas
da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os ergueu? Sobre quem
triunfaram os Césares? A decantada Bizâncio
tinha somente palácios para seus habitantes? Mesmo na lendária Atlântida,
os que se afogavam gritavam por seus escravos
na noite em que o mar a tragou.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?
César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?
Filipe da Espanha chorou quando sua Armada
naufragou. Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?
A cada dez anos um grande homem.
Quem pagava a conta?
Tantas histórias.
Tantas questões.
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