ARIEL SHARON: UMA TRAJETÓRIA CONTROVERSA

CIRES PEREIRA 

Ariel Sharon (1928-2014)

Sharon, foi um "mocinho" ou um "bandido"? Dependendo pra quem você formula esta pergunta, Sharon foi um “mocinho” na luta contra o mal que impede a consolidação de um sonho de uma “Pátria para os Judeus”, mas há que se encontrar com uma resposta diametralmente oposta, Sharon foi um “bandido” ao massacrar impunemente aqueles que se colocavam no seu caminho ou que obstruíam o seu sonho que era (continua sendo) o sonho de muitos judeus, uma “Pátria para os Judeus”.

O ex-premiê (chefe de governo) israelense Ariel Sharon faleceu no dia 11 de janeiro de 2014, aos 85 anos, depois de oito anos em estado de coma decorrente de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Por um lado, Sharon é considerado um criminoso pelos grupos palestinos que lutam contra a ocupação israelense em seus territórios, Fatah e Hamas. Por outro lado, o Presidente dos EUA e o Secretário Geral da ONU lamentam o falecimento do líder israelense.

Barack Obama reconheceu que o ex-primeiro-ministro israelense “foi um líder que dedicou a vida ao Estado de Israel”, numa mensagem enviada à família de Sharon e a toda a sociedade israelense. O secretário-geral das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, reconheceu que “Ao longo de uma vida dedicada ao Estado de Israel, Ariel Sharon foi um herói para o seu povo, primeiro como soldado e depois como estadista”.

Yasser Arafat 1929-2004 - Principal líder da OLP
Para Jibril Raboub, um dos líderes da organização política palestina Fatah “Sharon era um criminoso, responsável pela morte de Arafat e nós esperávamos que ele comparecesse perante o Tribunal Penal Internacional enquanto criminoso de guerra”. Para o Hamas, organização palestina que controla a Faixa de Gaza, Sharon era um “criminoso cujas mãos estavam cobertas de sangue palestino”.


Quem foi Ariel Sharon?

Ariel Sharon era comandante das tropas israelenses em diversos combates e incursões, especialmente contra os alvos palestinos. Desde a criação do Estado de Israel, Ariel Sahron exerceu um papel relevante em todos os combates envolvendo árabes e israelenses, como a guerra entre israelenses e árabes de 1948-1949, o conflito pelo canal de Suez, a guerra dos Seis Dias, e a guerra do Yom Kippur.

Nos anos 80 exerceu o cargo de Ministro da defesa, cabendo a ele todo o comando da operação de invasão à capital do Líbano, Beirute. Cargo que ele foi forçado a devolver por conta de denúncias responsabilizando-o pelas morte de centenas de palestinos nos campos de refugiados de Sabra e Chatila sob custódia israelense.

O massacre em Sabra e Chatila (Líbano)

O Líbano tornou-se de fato soberano em 1945 quando se desvencilhou da tutela francesa. Estabeleceu-se um pacto entre cristãos maronitas (maioria) e muçulmanos (minoria), estes divididos entre sunitas e drusos que, mesmo se reivindicando do islamismo, são vistos por muitos muçulmanos como uma seita herética. Até 1972 o Líbano era um país politicamente estável, um regime republicano e parlamentarista, comumente com presidentes cristãos-maronitas e primeiros-ministros muçulmanos sunitas, numa espécie de "cohabitação ou coalizão".

Em razão das crescentes ocupações feitas pelos israelenses na Palestina, muitos palestinos evadiram para o sul do Líbano sendo bem acolhidos pelos muçulmanos libaneses e, ao mesmo tempo, perseguidos pelos cristãos favoráveis aos israelenses. Pressionado pelos países árabes contrários a Israel, o governo libanês passou a permitir a organização de células de resistências libanesas comandadas pela OLP, sob a condição de que não atacassem Israel a partir do sul do Líbano.

O atentado contra atletas israelenses durante as olimpíadas em Munique em 1972 provocou uma onda de violência por parte de Israel que passou a atacar também alvos palestinos estabelecidos no sul do Líbano. A "Falange ou Kataeb", partido cristão, nacionalista e de feições fascistas , fundado em 1936 por Pierre Gemayel pai de Bashir Gemayel que se destacou na ofensiva independentista nos anos 40, alia-se aos governos de Israel de dos EUA e passa a ter papel importante na repressão aos muçulmanos (palestinos e libaneses) mais radicais.

A estabilidade no Líbano foi se esgotando até culminar numa guerra civil, tropas israelenses amparadas pelo governo cristão-maronita entraram no país em junho de 1982. O governo israelense de Menachem Begin apoiava a candidatura vitoriosa de Bashir Gemayel à presidência da República do Líbano.

Bashir Gamayel (1947-1982) - líder da Fhalange libanesa

Bashir Gemayel foi morto num atentado antes de ser empossado presidente em 14 setembro de 1982. Os falangistas imediatamente atribuíram o atentado aos muçulmanos radicais apoiados pelo governo de Hafez al-Assad da Síria e pela OLP(Organização para a Libertação da Palestina de Yasser Arafat). 

Um dia depois do atentado, entre os dias 15 e 18 de setembro, milícias falangistas invadiram os campos de Sabra e Chatila e massacraram entre 400 e 3.000 palestinos, numa espécie de revide descomunal ao assassinato de seu líder. Os campos de refugiados palestinas estavam sob controle do Exército israelense que poderia ter evitado o banho de sangue. Ariel Sharon chegou a se reunir com a família de Gemayel antes deste massacre para prestar solidariedade à família e colocar-se a disposição, de uma forma discreta mas não menos importante, para uma eventual reação.

Massacre de Sabra e Chatila (15-18 set. 1982)

A participação do exército israelense, logo do Ministério da Defesa, neste massacre acabou sendo comprovada, Os soldados israelenses podiam mas não quiseram impedi-lo. Ariel Sharon, não teve como escapar da corresponsabilidade neste massacre, mas saiu impune. 

Depois de intermináveis idas e vindas na Justiça da Bélgica – país que permitia o julgamento de estrangeiros acusados de crimes de guerra, e a cujos tribunais 23 sobreviventes do massacre apelaram –, o caso foi encerrado.

O ministro da Defesa de Israel, Ariel Sharon (segundo à esquerda) testemunha numa comissão sobre o massacre de Sabra e Chatila - Reuters - 25-10-1982

A Corte Suprema de Israel considerou o Ministro da Defesa do país, Ariel Sharon, pessoalmente responsável pelo massacre, por ter falhado na proteção aos refugiados. Em 16 de dezembro de 1982, a Assembleia Geral da ONU condenou o massacre declarando-o um ato de genocídio. A secção D da resolução, que "definiu o massacre como um ato de genocídio", foi adotada por 123 votos a favor, 0 contra e 22 abstenções. Os milicianos falangistas, o governo de Israel e Ariel Sharon jamais foram punidos por este massacre. 

Foi neste contexto que se estruturou a milícia muçulmana xiita Hezbollah ou Hizbollah (Partido de Deus) no sul do Líbano. Os militantes do Hizbollah sempre tiveram o auxílio do regime iraniano, também xiita, comandado pelo Ayatollah Khomeini. OHizbollah acabou preenchendo uma lacuna deixada com a retirada da OLP do território libanês, a partir de 1983. Em 1985 a milícia torna público um manifesto no qual elenca três grandes propósitos: "colocar um fim a qualquer entidade colonialista, punir os falangistas pelos crimes cometidos contra os muçulmanos e instituir um regime islâmico no Líbano.

O Hizbollah atualmente goza de grande aceitação entre os xiitas, pois foram considerados como decisivos na contraofensiva aos israeelenses que tiveram que deixar o Líbano em 2000. Por ouro lado são criticados pelos governos sunitas no mundo árabe, por conta do seu conhecido radicalismo e por posicionar-se em defesa da teocracia islâmica no Irã e do regime de Bashar al-Assad da Síria. 

Ariel Sharon voltou a ocupar cargos no primeiro escalão do governo israelense até ser eleito primeiro-ministro pelo partido conservador Likud no ano de 2001. Em 2005, Ariel Sharon surpreendeu os israelenses e irritou os seus colegas de partido quando optou por retirar os israelenses da Faixa de Gaza e abandonar os assentamentos judeus nesta região, sua justificativa principal era neutralizar o radicalismo na região, representado principalmente pelo Hamas, que avançava eleitoralmente.


O plano de retirada israelense motivou duras críticas internas provocando fissuras no Likud. O plano de retirada começou a ser executado em 2005. No mesmo ano, Benjamin Netanyahu (outro importante líder do Likud) e bastante contrariado com o premiê Sharon, candidatou-se à presidência do Likud. Vitorioso, Benjamin pediu a antecipação das eleições primárias que ocorreriam somente em 2006. No entanto, Sharon venceu as eleições novamente e se manteve no cargo, mas em seguida teve que se desligar do governo em razão de um AVC que o manteve em situação vegetativa até seu falecimento em janeiro de 2014.

Benjamin Netanyahu é atualmente o Primeiro-ministro do estado israelense e tem sofrido muitas pressões para que se mire no exemplo de Sharon que em 2005 surpreendeu o mundo com a proposta de retirada dos judeus na Faixa de Gaza. Para os conservadores Sharon traiu a causa do "Grande Israel", para os progressistas Sharon optou pelo pragmatismo ao curvar-se às pressões do ocidente. O governo Obama já se posicionou favorável à saída dos israelenses da Cisjordânia. Negociações estão sendo feitas neste sentido. Resta-nos uma indagação: Netanyahu seguirá os passos de Sharon, desmantelando os assentamentos israelenses na Cisjordânia? A julgar pelos seus recentes pronunciamentos, é pouco provável que isto ocorra, infelizmente.
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