AMÉRICA LATINA MUITO ALÉM DO WALL STREET JOURNAL

Cires Pereira

América latina segundo o Wall Street Journal (Verde Venham, estamos abertos!, Vermelha Desculpe, estamos fechados!)


Confesso que fiquei decepcionado não com as previsíveis conclusões de David Luhnow, que assina recente artigo publicado pelo Wall Street Journal. Ficou a vontade de quero mais, ocorre que David Luhnow não pode ir além disto, afinal de contas hoje em dia um jornal precisa destinar mais espaços para as publicidades. São as publicidades, mais do que os leitores, que garantem dos jornais. As matérias, as informações, os artigos, as opiniões e os editoriais ficam em segundo plano, isto é ocupam pequenos espaços entre os maiores destinados à publicidade. De qualquer modo valeu a intenção, pois pude constatar, mais uma vez, qual é a ideia Wall Street Journal tem sobre a parte latina do continente americano. De qualquer modo valeu a intenção, pois pude confirmar qual é a ideia que este jornal tem sobre a América Latina. 

David Luhnow inicia o artigo remontando ao ano de 2005 quando o governo dos EUA teria proposto uma "Aliança do Pacífico", à época muito incomodado com o colapso da carcomida ALCA (Área de Livre Comércio para as América). Não senhores articulistas, ou seja lá quem forem vocês, Bush (o filho) tinha outra preocupação, ou melhor uma obsessão, "salvar o mundo do avanço do Eixo do Mal". Mas como? Simples invadir e ocupar os espaços comandados pelos governos cúmplices dos terroristas fanáticos com ou sem aval do Conselho de Segurança da ONU, esta guerra ao terror já tinha começado no Afeganistão desde a madrugada do dia doze de setembro de 2001. Então cuide-se Saddam Hussein, "o que é seu tá guardado." Danem-se as regras, convenções e Conselhos.

David Luhnow sugere que em 2005 Brasil, Argentina e Venezuela encontravam-se sob a liderança de Hugo Chávez (então presidente da Venezuela). Das duas uma: ou David Luhnow subestima o potencial brasileiro ignorando o perfil diplomático brasileiro que não havia sido descontinuado pelo governo de Lula ou superestima a capacidade de convencer e de liderar de Hugo Chávez. Penso que dificilmente encontraremos algum jornalista que "cubra" a América Latina destes tempos daria ouvidos a um artigo que começa com prosaico erro de avaliação.

Naquele ano de 2005 os governos brasileiro, argentino, paraguaio e uruguaio comemoravam dez anos de poucos entendimentos deste o lançamento do MERCOSUL, reconheciam que os avanços ainda eram modestos, mas pelo menos reconheciam alguns avanços e estavam dispostos a aprofundarem os entendimentos. Chávez, por seu turno, tentava costurar uma alternativa à ALCA, negociando com os seus colegas do Equador e da Bolívia. Naquele momento as exportações estavam em franca expansão graças ao crescimento das demandas mundiais puxadas pela China. A ordem na América do Sul era abrir o leque de alternativas de comércio com África, Oriente Médio, Leste asiático, União Europeia, Leste europeu e América do Norte, logo o previsível Bush (filho) sabia que vendia na região um filho natimorto.

David Luhnow equivoca-se também na geografia quando afirma que "os países do Pacífico tendem a ter laços mais estreitos com Washington". David Luhnow entende que Bolívia e Equador (localizados no leste da América do Sul) estaria propensos a negociarem com Washington, na ocasião ambos acenavam com entusiasmo `para a "agenda bolivariana". Comete outro equívoco em relação ao Paraguai e Uruguai que, mesmo integrando o MERCOSUL, até aquele momento seus governo nutriam esperanças em relação a um entendimento com os EUA. Enfim David Luhnow parece ter uma visão sobre nossa região resultante de uma leitura mal feita acerca dos questionáveis dados oferecidos pelas "redes sociais".


Uma primeira importante conclusão deste artigo é a seguinte: "Há duas Américas Latina agora." De um lado, uma América que não transige, que "desconfia" e, do outro lado, uma América que convida e que "abraça". Fazem parte do lado 1 Brasil, Argentina e Venezuela e do lado 2, México, Chile, Colômbia e Peru. Fico aqui imaginando a frustração dos países não lembrados por David Luhnow, devem estar muito furiosos, afinal de conta isto é uma falta de respeito. Animem-se nações esquecidas, afinal de contas é apenas um jornal, isto parece ser falta de conhecimento mesmo, pois que conhecem vocês costumam respeitá-los ou tratá-los com deferência.

A partir desta primeira conclusão o artigo coloca a região numa espécie de "encruzilhada". Quo Vadis, América Latina. Qual caminho devemos seguir? Ou melhor, a América Latina deve nadar a favor da corrente (mercado, neoliberalismo, EUA, Céu) ou contra a corrente (intervencionismo, protecionismo, keynesianismo, inferno). Neste ponto pelo menos uma coisa concordo com "WSJ", as disputas eleitorais na região tem sido nos últimos anos plebiscitárias. De um lado a alternativa que propõe incondicionalmente o modelo neoliberal sem cortes e, do outro lado, a alternativa que impõe condições para aderir ao neoliberalismo, ciente que o neo liberalismo não estaria disposto a concessões.

Numa espécie de "Vale-tudo", o David Luhnow opta em anunciar as palavras de um (quem diria) aprista peruano, o Presidente Alan Garcia que presidiu o Peru entre 2006 e 2011. "Essa não é a América Latina que eu vejo no futuro. Eu vejo o futuro em países como o Chile - que por um bom tempo tem sido um bom exemplo de como fazer as coisas -, Colômbia, Peru e México." Como o tema central do artigo é economia, intuo que Alan Garcia esteja se referindo apenas à gestão econômica, marcadamente liberal, no Chile desde o golpe de 1973. Não conseguiria acreditar que Alan Garcia pudesse estar se referindo ao "conjunto da obra chilena", ou estaria? Ou então, será que este detalhe é uma coisa menor para os articulistas do WSJ ? Parece que sim. Ao longo do texto este "detalhe menor" continuará sendo ignorado.

A previsão do crescimento econômico para 2014 no "Pacific Alliance" constituída por México, Colômbia, Peru e Chile é de 4,25 %, segundo a Agência Morgan Stanley estes países apresentam uma inflação baixa e sob controle e com alto nível de investimentos estrangeiros. A mesma agência considera que Venezuela, Brasil e Argentina (integrantes do MERCOSUL) deverão ter um crescimento médio de 2,5 % com o Brasil crescendo somente 1,9 %. Relatório da CEPAL (Comissão dos países da América Latina e Caribe) publicado em dezembro de 2013, prevê um crescimento de 2,6 % para o Brasil e para a Argentina e de 3,5 % para o México. O México em 2013 cresceu 1,3 %, menos do que o Brasil (2,2 %) e do que a Argentina (4,5 %). O WSJ opta pelos estimativas da Morgan Stanley e ignora as estimativas da CEPAL e da OCDE que apontam diferenças menores.

EXPANSÃO DO PIB: PERU E ARGENTINA TIVERAM AS MELHORES TAXAS

David Luhnow salienta que o Brasil não promoveu as reformas necessárias para enfrentar a retração das demandas mundiais desde 2008 provocando queda nas exportações brasileiras e comprometendo o desempenho da economia brasileira. David Luhnow tem razão, nossas exportações caíram, mas a economia não ficou comprometida. Crescemos menos, mas não paramos de crescer. Não paramos de crescer graças ao avanço das demandas internas decorrente da redução do desemprego (o menor da história), da valorização do salário mínimo (300 U$), do controle inflacionário (não irrompeu a meta planejada) e das políticas de transferência de renda ensejadas pelo Estado (Bolsa família, Minha Casa Minha Vida, farmácia Popular, etc). Para o Jornal estadunidense isto não conta, certamente por se tratar de políticas estranhas à agenda do neoliberalismo.


O artigo expõe uma diferença importante entre as duas principais economias latino-americanas, a mexicana e a brasileira: as exportações de manufaturados já representam um quarto do PIB mexicano e apenas 4% do PIB brasileiro, pois a economia mexicana é mais aberta e mais susceptível aos investimentos estrangeiros do que a brasileira. É sabido que a indústria brasileira enfrenta problemas de competitividade, a mexicana tende a ser mais atrativa ao mercado externo. Em infraestrutura de transporte, no entanto, ambos os países ainda têm muito a avançar. O México tem mantido as taxas de inflação sob controle, contudo ainda está distante do que tem sido feito no Brasil quanto à formalização do mercado de trabalho e ao crescimento da renda. Grande parte das exportações mexicanas destina-se ao mercado norte-americano, o México tem tentado aumentar acordos comerciais com outros países para reduzir esta situação que causou danos ao seu PIB nos três últimos anos por conta da retração da economia estadunidense. Conta a favor do México, integrante do NAFTA, o fato de que os mexicanos podem fazer acordos comerciais bilaterais e com outros blocos comerciais, o Brasil, integrante do MERCOSUL não poderia.


Um ponto que o artigo não tocou e que parece-me ser relevante é mudança política ocorrida em 2012, o PRI depois de doze anos como oposição (fato inusitado em sua história desde 1929) foi o grande vitorioso nas eleições. Peña Nieto do PRI é o atual presidente, na sua campanha prometera políticas sociais para redução das desigualdades sociais e da pobreza, para tanto terá que elevar cargas de tributos para dispor de um orçamento adequado ao prometido. Não se pode ignorar o fato de que nas últimas quatro últimas eleições mexicanas o PRD - Partido da Revolução Democrática - liderado pelos dissidentes do priístas como  Lopez Obrador e Cualtémoc Cárdenas sempre foi muito bem votado perdendo por diferenças que não excedem 2% para o candidato vitorioso. Deste modo a sociedade mexicana aguarda com muita expectativa o cumprimento das promessas de Peña Nieto, caso contrário o quadro tende a tensionar neste país.

Para o Brasil é preciso elevar o ritmo de crescimento dos investimentos industriais na economia. Caberia ao Estado criar as condições para o aumento dos investimentos de forma geral e estabelecer uma estrutura de incentivos que direcione boa parte destes para a produção de bens manufaturados voltados para exportação. Estas duas incumbências  trariam resultados positivos a médio e longo prazos, enquanto isso nossas exportações continuariam sendo comandadas pelas commodities. De qualquer modo, algo tem sido feito como a nova lei dos portos, as concessões de novos trechos rodoviários para a iniciativa privada que avançaram bastante em 2013, os investimentos em novos modais de transportes e os acordos comerciais diversos apontam para, em curto prazo, uma melhoria em nossa competitividade externa. Creio que, contrariando David Luhnow, nossas exportações melhorarão no próximo ano e o percentual de produtos manufaturados exportados em expansão.

Por fim vale destacar as situações na Argentina e na Venezuela. Para compreendê-las é preciso considerar suas crises no final da década de 1990. A retração econômica era impressionante, os dois governos assistiam impotentes a elevação de suas dívidas públicas e apontavam como saída a elevação dos juros, uma flexibilização das leis trabalhistas e a privatização de suas principais estatais pra conterem a fuga de capitais e o comprometimento dos créditos e restabelecerem a normalidade. Os ajustes tendencialmente neoliberais feitos ao longo da década de 1990 não estavam surtindo os efeitos esperados e os indicadores sociais em em forte retração. 

A pirâmide central registra o efeito social da crise geral de 2009-2002

O agravamento desta crise, resultante das políticas neoliberais, provocou mudanças políticas. Na Venezuela, com a eleição de Hugo Chávez em 1998, a nova Constituição em 1999 e reeleição de Chávez em 2000. Na Argentina, Eduardo Duhalde assumia o governo argentino em 2002 para debelar a crise geral e, exitoso, eleger seu candidato Nestor Kirchner em 2003.

Comparemos dois extremos, o Chile como economia mais aberta e a Venezuela como economia mais fechada. Na Venezuela o combate à pobreza, entre 2003 e 2012,  tem sido mais eficiente. O governo venezuelano criou diversos programas voltados para atender as populações mais pobres. Em 2003, 62,1% da população vivia abaixo da linha da pobreza (2 dólares por dia). Em 2012, esse número diminuiu para 25,4% da população. Já no Chile, a pobreza em 2003 era de 18,7% e caiu para 14,4%.  

Alheio a estes dados o articulista do WSJ David Luhnow utiliza uma frase atribuída a um brasileiro (não cita o nome) de que "O Brasil está se tornando Argentina, a Argentina está se tornando Venezuela, e a Venezuela está se tornando Zimbabwe" para sintetizar o que se passa na "parte Atlântica". 

David Luhnow, espero que os brasileiros tenham um dia uma qualidade de vida ao nível de grande parte dos argentinos, desejo que os argentinos sejam tão solidários quanto os venezuelanos, solidariedade demonstrada no momento de crise aguda na Argentina em 2001 e 2002. Na ocasião o governo venezuelano se dispôs a compra títulos do governo argentino muito depreciados em razão da decretação da moratória pelo governo argentino. Desejo que todos os latino-americanos, tanto do "pacífico" quanto do "atlântico" tenham êxito em suas políticas econômicas e sociais para que, entre outras coisas, possam colaborar social e economicamente com as populações africanas, em especial com os pobres do Zimbabwe. Espero que todos os governos da América Latina mirem-se no exemplo do governo do Brasil e ajudem o Zimbabwe, uma das tantas pátrias africanas preteridas pela "pátria" do Wall Street Journal e de seu articulista David Luhnow.
0