11 de abril de 2014

A PRIMAVERA : A VISÃO ALEGÓRICA DE BOTTICELLI

CIRES PEREIRA 


"Alegoria da Primavera" de Sandro Botticelli 

O florentino Alessandro di Mariano di Vanni Felipepi, mais conhecido como Sandro Botticelli, nasceu em 1444 e faleceu em 1510. Há uma unanimidade entre os especialistas em relação à importância da obra de Botticelli para as artes de uma maneira geral e uma referência obrigatória para a compreensão do Renascimento Cultural.

Consta que um parente de Lorenzo de Médici, governante da cidade de Florença, tenha feito algumas encomendas ao pintor. Por volta de 1482 o quadro "Alegoria da Primavera" foi concluído e devidamente entregue ao mecenas. Era recorrente o afluxo de pintores para a Península Itálica por conta dos estímulos financeiros, pois havia uma elite política e uma elite econômica que, somada à cúpula da Igreja Católica, costumavam ser bastante generosos com os artistas em geral.

"Alegoria da Primavera" é um quadro de 2,05m por 3,14 em que foi utilizada a técnica de têmpera (os pigmentos e cores são misturados à um aglutinante, uma emulsão feito com ovos e água) sobre madeira. Esta obra é integrante do acervo exposto na Galeria Ufizzi de Florença,Itália.

Ao captar o início da primavera, Botticelli enfatiza a relação harmoniosa que deve haver entre os seres humanos, suas divindades e a natureza, num claro afronta aos dogmas impostos pela Santa Sé (a cúpula da Igreja Católica) naquela época. Adornado por larangeiras que se fecham em semicírculo, a Deusa Vênus é retratada prenhe enquanto o seu filho, "Eros", é retratado de olhos vendados atirando a flecha do amor.

"Alegoria da Primavera" é acima de tudo uma ode à liberdade, um direito pouco ou nada respeitado numa época em que o arbítrio dos monarcas e seus vassalos se juntava ao dogmatismo religioso para enquadrar a sociedade, punindo com severidade quaisquer desobediência e/ou sacrilégio. Existe um enorme quantidade de trabalhos artísticos e científicos que convergiram neste propósito criticista, como "O juízo final" e a "Criação de Adão" de Michelângelo, do mesmo artista temos ainda "A anunciação", "O Nascimento de Vênus", "Adoração dos Magos", além de retratos como "Retrato de Giuliano de Médici" e "Autorretrato".

Outras divindades da mitologia são retratadas como Zéfiro, à direita do quadro, e Mercúrio, à esquerda. 

Zéfiro sopra Clóris, uma ninfa de vestidos transparentes que se transforma em flora a deusa da primavera. Clóris aparenta uma mistura entre o medo e o encantamento frente ao Zéfiro, de sua boca evade um ramo de flores conectado ao corpo de flora. 


Mercúrio, o mensageiro dos deuses, porta em sua mão direita caduceu (bastão de Hermes entrelaçado por duas serpentes, a serpente da direita simbolizando o livre arbítrio e a serpente da esquerda simbolizando o fatalismo) e a espada que representa a ideia de guardião dos bosques. Mercúrio encontra-se próximo a outras três ninfas ou três graças (Aglaia, Tália e Eufrósina) igualmente vestidas com tecido transparente que vislumbra a beleza feminina. As três ninfas são retratadas em movimentos muito delicados e sensuais, fica a impressão de que seus pés não tocam o chão tamanha a leveza de seus movimentos.


Outro detalhe importante é a fidelidade com que a natureza e os seres são retratados (Botticelli era muito respeitado como exímio retratista). Alguns especialista sugerem que Juliano de Médici está representado como Mercúrio e que Simonetta Vespucci, reconhecidamente musa do artista, representada como Vênus.


Depreende-se de "Alegoria da Primavera" os traços marcantes do renascimento artístico tais como: a classicismo, o naturalismo, o hedonismo, o realismo e o antropocentrismo. Enfim Boticcelli cumpre tanto quanto cumpriram Michelângelo Buonarroti, Leonardo da Vinci e Raphael Sânzio dois grandes propósitos do movimento renascentista: o primeiro, humanizar o que até então era, pelos reles e fieis mortais, até então venerado e pouco ou nada compreendido e o segundo, endeusar ou adorar o ser humano, até então visto como uma reles e fiel criatura de Deus.
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