12 de abril de 2014

A "CRIAÇÃO" DE MICHELÂNGELO

CIRES PEREIRA
Michelangelo 1475 - 1564 
A Capela Magna foi restaurada entre 1477 e 1480 e inaugurada em 1483 durante o Pontificado de Sisto IV (1471-1484). Seu sobrinho, que também tornou-se Papa (Julio II) mudou o nome da Capela homenageando o tio (Papa Sisto IV) passando a ser denominada "Capela Sistina". Situada no "Palácio do Vaticano", a Capela tem aproximadamente 540 metros quadrados e um pouco mais de 20 metros de altura, desde então tem sido palco das eleições pontificiais. 

No seu interior deparamos com dois grandes afrescos*: "A Criação de Adão" e o "Juízo Final". Afrescos que certamente encontram-se em todas as listagens de obras artísticas mais significativas da história das artes. Ambos concebidos pelo florentino Michelangelo Buonarroti, nascido no ano de 1475. O artista faleceu 89 anos depois em Roma. Michelangelo integrou um amplo movimento cultural europeu situado na passagem do Período Medieval para o Período Moderno, denominado Renascimento Cultural. O movimento defendia o racionalismo, o antropocentrismo, individualismo e realismo a partir da rejeição aos principais pilares da cultura medieval concebidos segundo as conveniências do pensamento e autoridade cristão, a saber; o teocentrismo, o dogmatismo e o misticismo.

*Afresco é uma técnica de pintura mural, executada sobre uma base de gesso ou nata de cal ainda úmida sobre a qual se aplica pigmentos puros diluídos somente em água. Dessa forma, as cores penetram no revestimento e, ao secarem, passam a integrar a superfície em que foram aplicadas.

A "Criação de Adão" foi retratada na parte central do teto entre 1508 e 1512 medindo 280 cm por 570 cm, a obra é uma espécie de catarse de um conjunto de passagens do Antigo Testamento retratadas pelo artista, durante o pontificado do Julio II (1503-1513). O "Juízo Final", adorna toda a parede do altar, medindo 13,7 metros de largura por 12,2 metros de altura teve início em 1536 e concluída em 1541 durante o pontificado do Papa Paulo III (1534-1549). 

"Juízo Final" afresco ao fundo 
No Velho Testamento, no livro de Gênesis, há um relato sobre como Deus criou o mundo. No princípio Deus criou os céus e a terra, fazendo a separação entre luz e trevas. No capítulo 1 e versículo 2, explica muito bem esse acontecimento, a terra era sem forma e vazia. Esse princípio faz referência ao universo, ou seja, começa a origem da matéria e a noção de tempo, a expressão “forma e vazia”, remete ao nada, pois somente havia vácuo. No segundo dia criou o firmamento sobre as águas, denominado céu. No terceiro dia Deus separou as águas e a terra, determinando que a terra produzisse árvores frutíferas. As estrelas foram criadas no quarto dia, o Sol iluminando a terra durante o dia e as estrelas que também iluminando a terra durante a noite. No quinto dia Deus criou todas as espécies de animais, as aves, os aquáticos e os répteis. 

No sexto dia, Deus ordenou a terra produzir os seres vivos conforme a sua espécie. E assim, criou o ser humano. “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança e que ele tenha controle sobre todos os animais.” Então o homem foi criado do pó da terra e nas suas narinas Deus soprou o fôlego de vida. A mulher foi formada pela costela do homem, também conforme a sua imagem e semelhança. No sétimo dia Deus contemplou Sua obra.

"A Criação" de Michelangelo

Ao voltar a Roma em 1508 Michelangelo recebeu uma encomenda do Papa Julio II que não lhe agradou, decorar a abóbada da Capela Sistina. Michelangelo nunca escondeu sua predileção pela escultura. Felizmente para a história da Arte, o mestre não conseguiu desvencilhar-se dos caprichos de Julio II e começou a produzir os afrescos da Capela Sistina.
Papa Julio II - Raphael Sânzio 
Deus é retratado na forma humana, um senhor com cabelos acinzentados, parcialmente encoberto por um pano branco é ladeado por anjos. Algo intrigante é a retratação de um corpo de uma mulher, semi coberta pelo corpo de Deus. Mesmo que Eva tenha sido criada a partir da costela de Adão, muitos poderiam intuir de que se trata da própria Eva.
"A Criação de Adão" de Michelangelo 
Diante de Deus deparamos com Adão, retratado no mesmo plano e na mesma altura do "Criador" parece querer compreender a criação, pois seu olhar não necessariamente indica um olhar de mera veneração, parece-me ser mais investigativo e inquiridor. O ser humano, na perspectiva renascentista, diferencia-se dos demais seres vivos porque possui as faculdades de pensar e de criar rompendo, portanto, com a ideia de um ser que se apequena diante do indecifrável ou de uma explicação mística ou sobrenatural dos fatos, da natureza, de deus e do próprio ser humano.

As posições de Deus e Adão, a pintura do braço direito de Deus e esquerdo de Adão muito se assemelham sendo, portanto, fidedigno ao descrito no livro do Gênesis 1:27, "Deus criou o homem a sua e semelhança". O dedo indicador de Adão teve que ser pintado novamente em razão de uma dano provocado por um desabamento ocorrido no século XVI.

Ao final de quatro anos de agonia, sofrimento e êxtase, Michelângelo concluiu a sua obra. No dia 2 de novembro de 1512, o artista retirou os andaimes que encobriam a perspectiva total da obra, permitindo a presença do papa à capela, para que pudesse ver o resultado. A pintura trazia toda a trajetória humana. 

Trezentos personagens do Antigo Testamento desfilavam pela abóbada da capela. Júlio II foi o primeiro a ter a visão de um esplendor criativo de beleza e genialidade jamais pensadas até então, imagem que conquistaria milhões de visões por mais de cinco séculos, atraindo e fascinando pessoas de todas as raças, credos e ideologias.
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