31 de julho de 2020

Você

Você....

Versada nas diversas versões do verso
Cônscia dos respectivos anversos.

Você...

Prendada pela instrução e abnegada
em contraditar os axiomas, devidamente aquiescida pelos preceptores mais criteriosos.

Você ....

Suave tal como uma poetisa estimulada pelas melhores uvas alentejanas.

Você...

Leve tanto quanto os passos da primeira do Bolshoi.

Você...

Instigante tanto quanto os tons expressos nas telas da pintora de Coyocan.

Muitos matizes, muitas formas, variados tons pras cores de você.

21 de julho de 2020

GEORGE FLOYD

CIRES PEREIRA

Agonizou sob o joelho branco de um covarde que se escondia numa farda que deveria ser usada pra defender, e jamais tirar, a vida.

Suplicou pela sensibilidade de um animal insensível. 
Esperneou como se quisesse resistir pra ter a vida que se esvaia.

Bradou inocuamente com um canalha que pensava ser humano. Faltou-lhe ar, faltou-lhe a liberdade, ar e liberdade que sobram para as peles brancas.

Willian Du bois, o nosso Abdias, Malcolm e Dr King sempre alertaram que os brancos, que tantas peles vermelhas mataram, não hesitariam também em eliminar as pretas. 

Os Brancos que escravizam, distorcem e dissimulam, meu caro Floyd, também matam da forma mais prosaica e vil, usando seus músculos bem treinados e ignorando seus cérebros.

Aqui nos trópicos, o que se passou com você na pequena Minnesota é uma cruel rotina. Malcolm X também morreu pela ira dos canalhas, exatamente por defender o “Black Power” contra esta triste rotina. 

Até a vida de Luther King, pobre George, que tanto conclamou a coexistência “Black and White”, foi abjetamente abreviada em Memphis. 

Sabe por que, Floyd, continuam açoitando e matando?

Porque sempre contam com a licenciosidade dos brancos que empesteiam os tribunais e as delegacias.

A execução de George Floyd no asfalto e rente ao pneu da viatura, não será esquecida. Labaredas e estilhaços se juntam às vozes indignadas das peles pretas do mundo inteiro contra o asco da “pax branca”.

FOGO NO CÉU E NA TERRA

CIRES PEREIRA


A Imprensa se viu forçada a reportar ambos os fogos, de modo exultante o primeiro e, de modo preocupante, o segundo. 

No momento em que labaredas consomem viaturas, prédios e vitrines pelos quatro cantos da maior potência do mundo, outra era forjada pelo motor do foguete que lançou na estratosfera seres humanos pra uma “viagem de negócios”. Sim, meus senhores e senhoras, a NASA arrendou para uma empresa privada da Califórnia, sua tecnologia e sua infraestrutura. 

Nada é mais atual que o poema de Carlos Drummond de Andrade, intitulado “O homem e as Viagens, pra exprimir com a arte o que se passa, trago-lhes o excerto final desta “beleza”:

“Restam outros sistemas fora do solar a colonizar
Ao acabarem todos, só resta ao homem (estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem de si a si mesmo:
Pôr o pé no chão do seu coração
Experimentar, Colonizar, Civilizar, 
Humanizar o homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria de conviver.”

Astronautas a bordo da cápsula “Crew Dragon”, estão viajando, por 19 horas, pelo espaço sideral. A cápsula foi projetada pela SpaceX, empresa do bilionário Elon Musk que fez uma parceria com a NASA, a Agência Aeroespacial dos EUA. 

O Presidente Trump que acompanhou o lançamento, assim disse: “É Incrível, o poder, a tecnologia. Foi uma vista bonita".

Trump, antes de ter exultado este empreendimento público/privado, referiu-se ao “fogo que arde em terra”, consumindo viaturas policiais, prédios e vitrines privadas, com as seguintes palavras:

"... Esses bandidos estão desonrando a memória de George Floyd, e eu não deixarei isso acontecer. Acabei de falar com o governador Tim Walz e lhe disse que os militares estão com ele o tempo todo. Qualquer dificuldade e assumiremos o controle, mas, quando o saque começa, o tiroteio começa. Obrigado!"

Quem, consternado pela humilhação de ver um irmão de pele preta ser esganado pelo joelho branco de um “bicho fardado”, se indigna e se manifesta (a grande maioria é pacífica) é tratado como “bandido” e ainda tem que ouvir deste “topete branco” que “quando os saques começam, os tiros começam”.

Ora quem conhece alguma coisa sobre a história recente dos EUA, bem sabe o que esta frase quer dizer. No auge dos protestos contra a guerra e a discriminação racial nos EUA, liderados por Martin Luther King até o dia em que morreu, 04 de Julho de 1968, um delegado assim o disse em resposta aos protestos. 

Em meio a exasperação popular, a direita americana levou a melhor nas eleições no final daquele ano. O republicano Nixon derrotou o democrata Humprhey por meio ponto de vantagem e, o mais curioso, os 13,5 % dos votos dados ao segregacionista George Wallace, do Alabama. Intensificou-se, desde então a máxima Law and Order” pra conter o “fogo na terra do Tio Sam”, enquanto se aplaudia os feitos “lunares” do projeto Apollo. 

“Decolagem do Falcon Heavy” – Foto: Pauline Acalin

Enfim, o poeta tinha razão, ao vaticinar que as conquistas humanas no espaço contrastam com a carência de compreensão do universo humano. A exultação da primeira pelo establishment branco e liberal tem sido diretamente proporcional à criminalização dos seres que, excluídos e violentados, exigem um mínimo de atenção.

NÃO SEI

CIRES PEREIRA

Não, não parafrasearei Sócrates, sou pretensioso mas não iria tão longe, ou “Sócrates”.

Preferiria saber pouco mais sobre as pessoas e as coisas, mas falta-me tempo. Sim, o (meu) tempo de não fazer nada (ócio criativo o escambau) é preciosíssimo. Preciso dele pra aproveitar a vida. De modo que, quando estiver beirando os “cem”, possa (se a memória de um novecentista permitir) “passear” pelas minhas décadas de vida e delas extrair a conclusão de que bem as vivi. 

Muitas foram as viagens no tempo e no espaço que fiz, quase todas a bordo dos livros, estes meus maiores professores. Sobre elas as vezes penso em registrar além do espaçados registros que conservo em minha minha cabeça. Mas, como já lhes havia escrito, falta-me tempo e... Bem, neste cas, não se trata apenas de falta de tempo (a maior parte destinado a nobre causa do “fazer nada”), mas talento pra escrevinhar. 

Quando escrevo, modéstia às favas, me vejo um escritor, mas quando leio por aí o quanto e como se escreve, fica a sensação de que não (definitivamente não) escrevo bem. Minha débil capacidade de escrever, considerando o que se passa em minha cabeça e a vontade de exprimir sobre, não é, pasmem todos, frustrante! E esta verdade não é (nem um pouco) dolorida.

Felizmente, do pouco tempo de minha vida reservado à leitura, os escritos que conheci, comumente, têm sido melhores que os meus. E isso é absolutamente óbvio, afinal de contas não se aprende o pouco que já se sabe expresso ou não na sua escrita, aprende-se o que os outros escrevem. 

E ponto!

Ahh, como é bom andar, corrrer e voar pelas páginas dos livros. Como é deliciosa esta aventura perene de ler outros e outras. Como é fabulosa, a fábula; excitante, o conto; inebriante, o romance e divina, a tragédia.

Pensando bem, o saber sobre coisas e pessoas não poderia ser nada. É, no mínimo, pouco. Ainda que Sócrates esteve e esteja certo.

Cires Pereira, um leitor das (suas) horas vagas.

QUEM?

CIRES PEREIRA

Quem propõe armar a população?
Quem defende fechar o Congresso?
Quem quer a interdição de Ministros do STF?
Quem afirma que a OMS tem um “viés ideológico”?
Quem quer aproveitar o momento pra aprovar leis que agridem o meio ambiente?
Quem acusa os opositores deste governo de serem terroristas?
Quem quer o relaxamento de medidas de isolamento logo no pico de infecções?
Quem quer que se use remédios sem comprovação de sua eficácia contra o coronavírus?
Quem está minimizando os números de óbitos por Coronavírus?
Quem afirma, mesmo sem comprovação, de ter sido vítima de um conluio esquerdista pra matá-lo?
Quem ignora as mais elementares regras, como o uso de máscaras?
Quem, reiteradas vezes, ofende negros, mulheres e homossexuais ?
Quem silencia repórter quando este faz uma pergunta inconveniente?
Quem se cala diante de absurdos ditos por subordinados contra a Constituição?
Quem usa sua autoridade pra conter investigações que comprometem seus filhos?
Você se disporia a esquecer tudo isto e “dar mais uma chance”?
Você se atreveria a votar em quem faz tudo isto, ou repetir o seu voto caso tenha nele votado?
Você ainda tem alguma duvida de que a democracia brasileira esteja sob ameaça?

SOBRE ESTE GOVERNO E A NECESSIDADE DE UM OUTRO

CIRES PEREIRA

A escolha e a demissão de um Ministro provocam reações diversas. Erroneamente muitas destas reações limitam-se a analisar o escolhido ou o demitido. Suas qualidades ou a falta delas e a pertinência da escolha. 

Pouco ou nada se fala sobre quem fez esta escolha (presidente), que critérios teria sido usados na escolha, o conchavo que originou a escolha e a justificativa desta escolha. 

O Presidente montou um plano e nomeou pessoas pra estarem à frente deste plano de governo. O que se nota até o momento é uma inépcia gerencial, que muitos jocosamente denominam de “desgoverno”. Não existe “desgoverno”, o propósito de Bolsonaro sempre foi de desmontar, descontinuar e inviabilizar o que fora construído. É o que tem sido feito, com uma surpreendente rapidez. 

E .... fica nisto!

Este governo não tem construído algo novo, o que não me surpreende, pois Bolsonaro venceu as eleições sem apresentar um programa de governo exequível. Não é segredo pra ninguém que o então candidato Bolsonaro se esquivava de toda e qualquer discussão sobre seu programa. 

Inventou até uma frase pra encerrar quaisquer questionamentos endereçados a ele: “Fale com o Posto Ipiranga”, neste caso o Paulo Guedes, hoje um de seus ministros.

Não havendo uma interrupção de seu mandato até início de 2023, este governo não colocará um só tijolo no lugar onde tirou tantos. É um governo que destrói e não reconstrói. Continuará criando factoides pra “entreter” a sociedade, a mídia e demais agentes públicos até que seu mandato expire. Não medirá esforços pra continuar por mais quatro anos, por isso essa obsessão em “aparelhar” tudo, não só no governo, mas em todo o Estado.

Não vejo outra alternativa pra interromper esta trajetória de destruição, senão uma frente de oposição que retome o diálogo com a sociedade civil e seja convincente. Que coopte a maioria que não votou e não votaria neste “governo de destruição”.

Esta frente precisa ser ampla e imbuida de alguns propósitos que unam seus aderentes como por exemplo: 

  1. o compromisso em preservar o Estado Democratico de Direito; 
  2. a retomada do crescimento econômico com um envolvimento maior do Estado;
  3. o restabelecimento do diálogo internacional que retome uma concertação mundial em defesa do multilateralismo sob o comando dos órgãos multinacionais como a ONU;
  4. a defesa de uma política visando reduzir as desigualdades sociais através de políticas de reparação social, do pleno emprego e aumento da renda;
  5. o compromisso com as agendas em defesa das minorias, do meio ambiente e da educação e
  6. o combate sistemático ao desperdício e à corrupção.
Todas as forças políticas: (liberais, democráticas, socialistas, trabalhista) e organizações da sociedade civil têm neste momento uma tarefa inafastável: conter a facistização do Estado, colocando-se em defesa do Impeachment do presidente, e reconstruir o Brasil pra que seja de fato uma terra de todos os brasileiros e todas brasileiras.

Não queremos o Brasil acima de tudo, mas um Brasil que seja de todos e todas!

ARMAS E LIVROS

CIRES PEREIRA

A obsessão em demonstrar virilidade e robustez é mais recorrente no gênero masculino, e isto não é de hoje. O que parece-me um contrassenso, pois o ser humano talvez seja, proporcionalmente, o mais frágil de todos os animais. 

Por exemplo, uma pulga cuja massa corpórea não chega a 0,0001 % da massa de um humano adulto, consegue um salto 200 vezes maior que o seu corpo. A maioria dos quadrúpedes alcança uma velocidade maior que a velocidade do humano. Portanto, os valentões que negligenciam livros precisam estar cônscios de que seus esforços físicos jamais se sobressairão aos de uma simples pulga.

O raciocínio é uma característica peculiar à espécie humana, logo deveríamos aprimorar esta peculiaridade, valendo-nos dos conhecimentos e ampliando nossa capacidade de produzir conhecimentos e fazer artes, sempre para o bem de nossa espécie. Mas não, ao longo de uma trajetória de mais de 350 mil anos, o que se nota são os conflitos motivados pela necessidade de o ser humano se sobrepor ao outro. 

Nossa luta pela sobrevivência passa pela agressão ao outro, visando subtrair do outro o que tanto lhe importa. Um fratricídio constante se impôs a partir do momento em que a espécie humana optou por fundar a propriedade privada ou o “isso aqui é meu”. Ora, temos sido o reflexo desta realidade competitiva e conflituosa, por tem nos importado mais o ter alguma coisa do que ser alguém que se importa com os demais.

Nossa capacidade de cognição tem se prestado mais à destruição alheia, como se bem percebe em tempos de guerras. Temos canalizado nossos conhecimentos pra sofisticar e fabricar armas visando proteger o que é nosso, matando o outro que supostamente cobiça o que supostamente é nosso. 

Um animal não humano só ataca quando atacado, demarca seu território e sobrevive nele. Não somos assim, mas minha sensação é que temos sido piores do que imaginamos ser. 

Ampliar a força física faz sentido se for por um motivo à altura da necessidade de um ser pensante. Quais os propósitos? Aumentar nossa resistência e melhorar nossa saúde. Por estes estes propósitos me habilito a fortalecer meus músculos, desde que não tome muito o meu tempo. Minha prioridade são os estudos, o conhecimento, a reflexão e a criação.

Aos que me apontam suas “arminhas” e seus músculos pra me intimidar, respondo com livros que são uma “arma letal” contra aqueles que querem destruir e que não tem condição de construir nada. 

Os livros constroem, muitos dos quais divirjo e divirjo porque os leio, já as armas destroem. Todos que me conhecem, sabem exatamente o meu lado nesta peleja. Luto e continuarei lutando em favor da espécie humana menos favorecida, nesta luta não há fronteiras nacionais. Não luto pelo país que vivo, mas por quem em meu país e no mundo inteiro precisa e merece. 

Aos livros, cidadãos e cidadãs!

Você

Você.... Versada nas diversas versões do verso Cônscia dos respectivos anversos. Você... Prendada pela instrução e abnegada em contraditar o...